9.12.17

Capítulo 53 - Parte 2/2

Demi não sabia distinguir se o frio que sentia era de medo ou o do ambiente geralmente gelado do banheiro. O coração estava tão acelerado e as mãos trêmulas. Engolindo em seco, ela moveu a mão em direção a porta da cabine depois de juntar toda a coragem que tinha. Selena não tinha respondido, mas o barulho os passos indicava que alguma coisa estava acontecendo.

   - Selena? – Chamou e fechou os olhos porque o medo estava a dominando. O silêncio era tão absoluto que quando o som da voz abaixou-se até que era nulo, o clima ficou pesado. Demi podia sentir que tinha alguém a esperando e era o que mais a assustava, a presença intimidante. – Que seja apenas uma brincadeira. – A voz quase não saiu, e foi tão baixa que só ela escutou. – Que seja apenas uma brincadeira. – As mãos tremeram e por instinto Demi olhou para cima da porta porque estava se sentindo observada. – Selena? Isso não tem graça! – Não era uma brincadeira, Demi engoliu em seco começando a ficar apavorada de medo. Se ela soubesse que era uma brincadeira da melhor amiga, não teria tanto medo de sair daquela cabine. O extinto a ajudaria, mas agora tudo que ele fazia era alerta-la.

Silêncio! Lutando contra o medo que começava a toma-la na mente e no corpo, Demi se esforçou e respirou fundo retomando os pensamentos. O coração acelerou absurdamente quando ela levou a mão ao trinco e o barulho do metal soou pelo banheiro fazendo eco. O medo era de abrir aquela porta e encontrar um monstro do outro mundo esperando ansiosamente para devora-la numa bocada só. Demi ouviu os próprios batimentos cardíacos conforme abriu a porta. E a coragem de olhar para frente? Ela o fez aos pouquinhos e não encontrou nada além que a vista para pia e o enorme espelho que a refletia assim como as cabinas que estavam no ângulo de reflexão. Porém um único passo foi suficiente para que a pele perdesse toda a cor a ponto da boca ficar esbranquiçada.

Erguer as mãos em sinal de rendição como nos filmes era o correto, certo? Demi não soube reagir a cena. Não soube se avançava ou se continuava parada, e pela última opção escolheu em prol da vida de Selena.

Mary era baixinha e visualmente parecia inofensiva. Mas aquela mulher que tinha uma mão cobrindo a boca de Selena para impedia-la de falar e uma arma apontada para a cabeça, era outra mulher. Os saltos eram poderosos e negros como o resto da roupa. As olheiras tinham contraste com o cabelo escuro que sempre aparentava estar impecável agora aparentemente sujo e seboso. A face estava indecifrável. O olhar vazio e perdido.

O que ela faria? Demi arriscou virar a cabeça na direção da porta e assim que constatou que estava travada com uma barra de metal apoiada à maçaneta e ao chão, Mary apertou mais Selena contra o corpo já que a abraçava por atrás e roçou a arma contra o couro cabeludo grosseiramente fazendo com que Selena automaticamente choramingasse de medo e dor.

   - Vo..Vo..Você não precisa fazer isso. – Era uma boa ideia falar? Demi estava com tanto medo, mas o motivo de Selena estar com uma arma apontada para a cabeça era o suficiente para motiva-la a tentar fazer o melhor para manter a amiga e o bebê seguros. – Deixa-a em paz. – Disse e o coração quase saiu pela boca quando Mary mirou a arma exatamente na direção dela.

   - O que você acha Selena? Os seus miolos ou dela primeiro? – O sorriso de Mary era perturbador e doente, o olhar lunático. Demi quis chorar por ouvir aquela frase e principalmente por estar naquela situação que jamais havia se imaginado. Pior de tudo era fitar os olhos de Selena carregados de desespero e medo.

   - Vam.. – O disparo foi rápido e ensurdecedor. Selena se remexeu nos braços de Mary tentando se soltar de qualquer forma, mas sem sucesso. As pernas perderam a força e o choro a tomou. Já Demi franziu o cenho se sentindo confusa e aérea, foram segundos daquela forma até que a dor começou a arder e queimar. Do antebraço do braço esquerdo para baixo o sangue escorria e quando o viu descer continuamente a sujando, ela se desesperou levando, num gesto automático, a mão ao braço.

   - Deu sorte que não acertei os seus miolos como aconteceu com o Jason, sua vagabunda. – Selena franziu o cenho e continuou derramando lágrimas porque a mão de Mary pressionada sobre a boca machucava e o abraço por trás era forte e começava a sufoca-la. – Não faça drama Lovato, só foi um arranhão.

   - O que você quer? – Demi franziu o cenho se sentindo fraca e com tanta dor no braço. Não dava para saber se a bala estava alojada no braço porque a dor era agonizante, o sangue já pingava no chão e estava impregnado nas pernas e no vestido.

Mary dispararia aquela arma novamente, Selena podia sentir que ela o faria, principalmente se Demi continuasse insistindo em falar. E prevendo que o pior iria acontecer, quando Mary mirou a arma na direção da cabeça de Demi pronta para disparar, Selena deu um jeito de empurra-la se remexendo fazendo com que o tiro acertasse o lustre luxuoso que começou a sair faísca de energia, certamente por ter acertado uma parte do circuito elétrico. A luz começou a piscar e a briga corporal foi intensa.

Selena usou as duas mãos para segurar a de Mary que portava a arma fazendo com que ela disparasse duas vezes na direção do teto, porém, por usar as duas mãos, a desvantagem era absurda. Mary a agarrou por trás pelos cabelos os puxando sem dó e chocou o corpo de Selena contra a parede com força, ela retomaria o controle, porém Demi a puxou por trás juntando toda a força que tinha para que Mary não machucasse Selena e nem o bebê. No meio daquela confusão toda, Demi se desequilibrou caindo no chão deitava com Mary sobre o corpo. A arma caiu longe, porém não deu tempo de saber onde, já que Mary atacou Demi com tapas no rosto e também foi atacada com socos que dificilmente chocavam-se em seu alvo.

   - Eu vou te matar pelo Jake, depois que você apareceu a nossa vida virou um inferno. – O tapa que Mary acertou o rosto de Demi ardeu, e movida pela raiva e ódio, Demi quase conseguiu inverter as posições acertando o rosto de Mary com tapas e usando as unhas para arranhar o que encontrasse a frente, porém ela não esperava que a cabeça fosse chocada com força contra o chão e nem receber mordidas nas mãos, e quando o dedo seria quebrado, a voz de Selena a assustou.

   - Sai de cima dela! – Gritou Selena nervosa e tremendo apontando a arma para Mary que a olhou assustada, mas logo a feição mudou para algo zombeteiro e incrédulo. – Eu mandei você sair de cima dela! – Tornou a gritar respirando fundo e olhando para Demi que tinha o cenho franzido e o rosto avermelhado e com alguns arranhões. Sel levou a outra mão para a segurar a arma com mais força e engoliu em seco. – Eu juro por Deus que eu vou atirar! – Disse firme, apesar que o corpo todo tremia de medo.

Sel realmente atiraria, caso Mary continuasse a machucar Demi, mas o barulho da porta sendo arrombada foi ensurdecedor porque atiraram contra a fechadura e um grupo de policiais a chutaram pelo lado de fora. Em questão de segundos o banheiro feminino estava tomado pelos seguranças e policiais que renderam Mary.

***

   - Onde está o saco da ração? – Com todo o trabalho pesado, era impossível sentir frio. Joe vestia apena um suéter e o cabelo estava começando a ficar úmido de suor, até porque estava grande por insistência de Demi. Ela gostava de como nas pontas criavam algumas voltas, então o rapaz decidiu deixar o cabelo daquele jeito justamente para agradar a namorada. Motivo também pelo qual ele usava barba. Joe se recostou na coluna do celeiro e fechou os olhos descansando um pouco quando Steve murmurou “Hum” como ele sempre fazia quando o pedia para esperar.

   - Está no andar de cima sobre a mesa de madeira, filho. – Disse pacientemente e Joe assentiu. Ele subiu as escadas de madeira se deparando com muito feno pelo caminho, acendeu a luz baixa amarelada e encheu os pulmões de ar para que pudesse colocar o saco pesado de ração sobre o ombro esquerdo. – Terminando aqui, nós vamos comer e descansar um pouco. – Disse assim que Joe desceu as escadas e colocou o saco recostado numa coluna para que eles pudessem alimentar os animais.

   - O que nós vamos fazer depois? – Perguntou Joe um pouco sem graça buscando pelo medidor de alumínio onde colocaria a ração.

   - Pensei que você poderia me ajudar com o computador. – Joe assentiu e respirou fundo. E como Steve o conhecia muito bem, ele sorriu observando o rapaz começar a alimentar os cavalos também conversando com eles. – Você quer ir para casa, certo? – Perguntou se juntando a Joe para agilizar o serviço.
           
   - Quero. A Demi está na festa de aniversário da Gyllenhaal, prometi a ela que eu iria encontra-la assim que terminasse aqui. – Disse envergonhado. Além de chefe, Steve também era um bom amigo e Joe tinha contado exatamente tudo que tinha acontecido entre ele e Demi, e às vezes ele recebia valiosos conselhos quando brigava com a namorada.

   - Então deixamos o computador para uma outra hora, quando terminarmos aqui, nós comemos e eu vou te levar para casa. – Joe assentiu esboçando um sorriso tímido quando o chefe riu e o apertou no ombro direito. – Quando vai ser esse casamento? – Perguntou brincando e Joe ficou vermelho, mas não deixou de sorrir.

   - Estou planejando pedi-la nesse final de ano, já estou com dinheiro para conseguir um bom anel. – Ele disse todo sonhador. Se não fosse pelas condições financeiras, Joe já teria pedido Demi em casamento há meses, o ruim era que ele nem mesmo tinha um carro ou moradia própria, o que de certa forma desmotivava o rapaz. Ele queria poder cuidar de Demi da melhor forma que ela merecia e da família que eles construiriam juntos.


O sítio não era parecido com o da família de Joe, era mais simples e pequeno, porém fazia o rapaz se lembrar do Texas e de todas as pessoas queridas que amava. O trabalho era árduo, porém com a boa companhia de Steve, não demorou nada para que eles terminassem.

   - Eu estava pensando. – O homem mais velho levou um guardanapo aos lábios e Joe o observou por segundos antes de voltar a atenção para o prato carregado de comida. Steve tinha aquela mania de fazê-lo comer até não aguentar. E comer raízes como mandioca e batata doce em grande quantidade era de deixar qualquer um ofegando e absurdamente satisfeito. – Você deveria contar à garota sobre os desmaios e que às vezes fica tonto. – Disse Steve passando um rabo de olho em Joe que bebeu um pouco do café com leite para ajudar a massa descer.

   - Eu não quero preocupa-la, Steve. – Ele disse depois de respirar fundo. – A Demi está feliz. Eu posso sentir e ver só de olhar nos olhos dela. Ela está em paz depois de tudo que aconteceu. Eu não quero preocupa-la com besteira. Estou fazendo exames e consultando regulamente com a minha médica. Não é nada de grave, se fosse, eles já teriam avisado.

   - Você já pediu a opinião de outro profissional? Procurou um bom especialista? Você sabe, erros podem acontecer. – Disse Steve e Joe franziu o cenho. Ele odiava tocar naquele assunto porque parecia que ele não queria ajuda.

   - Me sinto bem. Não acho que eu estou doente. – Murmurou um pouco irritado. – Estou satisfeito. – Tornou a murmurar cabisbaixo. Será que ele parecia tão frágil só porque era diabético e hipertenso? Às vezes Demi o sufocava com todos os cuidados, e também havia Steve e Ed que eram os responsáveis pelas broncas.

   - Estou preocupado com você, filho. Não me entenda mal. – Joe chegava estar com o cenho franzido, mas assim que fitou os olhos de Steve, assentiu se sentindo cansado.

   - Eu sei. Desculpa. Eu cresci cercado de cuidados. Eu só quero que as pessoas saibam que eu não sou de vidro, não sou um garoto.

   - Você não é, filho. – Os dois sorriram quando se olharam. Passar o tempo com Steve era fantástico. Ele tinha aprendido tantas coisas com aquele homem, e sentia que poderia contar tudo porque Steve o ouviria como um pai ouve um filho. – Vamos?

A cada quilometro percorrido Joe sentia o coração ficar mais agitado no peito. Ele estava ansioso para ver o sorriso de Demi e para leva-la para casa. O plano era passar à noite toda com ela nos braços a beijando e se movendo junto com ela como eles vinham fazendo no decorrer daquela semana. A mensagem avisando que estava chegando não foi enviada porque naquela área não havia cobertura para sinal de celular.

   - Tenho uma coisa para dizer para você. – Disse Steve concentrado em dirigir já que era noite e ainda por cima estava nevando, todo cuidado era pouco. E Joe nada disse, apenas fitou o chefe esperando pelo que estava por vir. – Você está demitido, filho. – As bochechas de Joe perderam a cor e o cenho foi franzido, mas assim que Steve o olhou sorrindo, Joe revirou os olhos. – Está demitido do cargo de segurança. Nós precisamos de alguém competente para cuidar da parte da TI, então eu pensei: você é jovem e inteligente, está tentando ter uma vida melhor para pedir a namorada em casamento. O salário na TI é melhor e você não vai precisar passar a noite toda acordado. O que você acha? – Joe assentiu prontamente sorrindo. Depois de meses de noites em claro, ele poderia finalmente ter a segurança que estaria todos os dias à noite em casa com Demi e Lucy.

   - Você está falando sério? – Perguntou animada e Steve assentiu ainda concentrado em guiar o carro.

   - Estou. Das oito da manhã até as quatro da tarde. Você ainda terá tempo para dar aula. – Disse e Joe assentiu radiante. Ele ganharia mais, poderia dar aulas para complementar a renda e ainda teria tempo para ficar com Demi.

   - Quando eu começo? – E para completar a felicidade, quando ele fitou o horizonte, avistou os arranha-céus quebrando o escuro da noite refletindo as luzes da cidade. Eles estavam chegando em Nova York!

   - Amanhã? – Steve olhou brevemente para o rapaz que assentiu. – Estou oferecendo esse cargo porque eu não quero nunca mais encontra-lo desmaiado na madrugada. Então tem uma condição: você vai procurar outro médico. – Tinha escolha? Joe assentiu depois de engolir em seco.

Não havia época do ano para que Nova York desacelerasse. Com a chegada do inverno, e consequentemente do natal dentro de um mês e poucas semanas, a cidade já começava a tomar forma para a maior festa do ano. Quando o carro já estava entre as ruas da cidade, Joe observou pela janela um grupo de moradores organizar um enorme pinheiro certamente para usá-lo como árvore de natal. Já mais para o centro, o movimento de pessoas agasalhadas ainda era grande e turbulento mesmo sendo tarde da noite. Steve o deixaria em casa, mas Joe preferiu que o chefe o levasse para o salão de eventos onde aconteceria a festa da Gyllenhaal para que ele pudesse encontrar Demi.

Chegou em determinado ponto que Steve não conseguiu avançar com o carro porque o engarrafamento não permitia, aliás, não dava para saber o motivo de ter um engarrafamento naquele horário, geralmente acontecia no final da tarde, não as quase onze horas da noite. Joe se sentiu aflito e ainda mais ansioso para ver Demi, inquieto, ele arriscou abrir o vidro da janela do carro para olhar melhor o que estava acontecendo.

   - Eu vou seguir a pé. – Comentou com Steve de cenho franzido quando viu uma moto da polícia se espreitar entre os carro conseguindo avançar. – Alguma coisa está acontecendo. – Murmurou quando mais uma moto seguiu em rumo ao salão.

   - Não está longe? – Perguntou preocupado com a ideia de Joe se atolar em toda aquela neve, ele não era muito bom em conseguir dribla-la e também havia a possibilidade do rapaz desmaiar.

   - Não. – Murmurou já nervoso quando viu que as pessoas que estavam no carro a frente tinham o abandonado e avançavam em direção ao salão onde acontecia a festa da Gyllenhaal com o celular em mãos. Tudo que acontecia era motivo para que as pessoas filmassem e gravassem, o que indicava que realmente tinha acontecido algum acidente, ou era uma celebridade ou algum fenômeno anormal. – Eu estou indo, ok? Amanhã cedo eu apareço na empresa. – Ele estava mais concentrado em observar o movimento lá fora a olhar para Steve.

   - Tenha cuidado rapaz, qualquer coisa é só ligar. Até amanhã. – Joe assentiu e Deus! Ele teve que juntar forças para não se desequilibrar na neve. Estava frio e uma luta para caminhar, principalmente entre os carros mesmo parados. Joe teve que caminhar pela calçada já que algumas pessoas conseguiam passar com as motos entre o espaço de um carro para o outro, e entre elas estavam mais policiais. Alguma coisa estava errada, ele podia sentir que estava e a cada vez que via as pessoas correndo com câmeras e celulares na mão, o coração apertava mais um pouquinho.

Como havia pensado, Joe quase desfaleceu no chão quando viu a horda de pessoas que estavam cercando a entrada do salão de eventos. As luzes da viatura estavam acesas assim como as da ambulância. Havia policiais, paramédicos, reportes e milhares paparazzi. Ele torcia mentalmente para que Demi estivesse bem, a preocupação era tanta, que para atravessar o mar de pessoas, ele teve que ser muito persistente e usar a força em alguns casos.

   - Assassina de Jason Gyllenhaal é presa nesta noite.

   - Jovem não resiste aos ferimentos.

   - Amante de Jake Gyllenhaal é baleada no braço pela assassina de Jason Gyllenhaal.

   - Mulher é baleada no banheiro da festa da maior empresa de tecnologia dos Estados Unidos, boatos afirmam que a jovem foi atacada por assassina de Jason Gyllenhaal.

   - Quem é a jovem baleada na noite gloriosa da Gyllenhaal Enterprise?

Amante; Não resiste aos ferimentos; Mulher baleada. O desespero tomou conta de Joe a ponto de olhos marejarem, ele atravessou o rio de pessoas depois de empurrar muitos, e quando conseguiu, tentou avançar para dentro do salão sendo barrado pelos policiais.

Era confuso ouvir toda aquela gente falando sem parar sobre teorias que ele nem mesmo sabia se eram verídicas. O barulho se misturava ao da ambulância e ao da viatura. Junto ao frio e a neve que não dava trégua, tudo se tornava insuportável. Houve um murmuro ensurdecedor quando de dentro do salão três policiais escoltaram Mary algemada e com as roupas ensanguentadas. Joe a fitou de olhos arregalados e estático, nem mesmo as pessoas o empurrando era o suficiente para desviar a atenção do rapaz.

Onde diabos estava Demi? O coração estava começando a doer e os olhos carregados de lágrimas. Não era possível que a moça que todos tanto falavam era ela. Ela não podia partir e deixa-lo. Quando uma lágrima rolou, o rapaz a secou sentindo uma dor gritante crescer dentro do peito esquerdo, ele soluçou e olhou atentamente a procura da namorada sem sucesso. Onde ela estava? Onde ela estava? Joe caminhou desesperado a procura de Demi e na primeira brecha que conseguiu, adentrou o salão de festas correndo porque dois policiais o avistaram.

   - Eu só quero saber onde está minha namorada! – Ele gritou quando foi detido sendo derrubado com tudo no chão por um dos policiais que era duas vezes maior que ele.

   - Ele está comigo, ok? – Joe franziu o cenho quando ouviu a voz de Ed. Ele tinha o rosto forçado contra o chão gelado e o pulso esquerdo já estava envolvido pela algema, motivo pelo qual não conseguiu olhar para o amigo de imediato, só quando foi bruscamente solto.

   - Onde ela está? – Murmurou se erguendo com a ajuda de Ed que o abraçou com força. – Ed! Onde ela está? – Perguntou sério e aflito levando as mãos para o rosto de Ed e fitando os olhos do amigo como se a verdade estivesse estampada neles.

   - Ela está bem, ok? – Mesmo aliviado, Joe chorou de emoção e porque ele nunca mais queria sentir medo de perder Demi. Estava fora de cogitação perde-la. – Só está um pouco machucada, mas está bem. – Os dois se abraçaram com força e deixando as lágrimas rolarem.

   - Eu quero vê-la, Ed. Eu preciso. – Disse ao amigo que assentiu limpando as lágrimas e logo o guiando pela mão para a área onde Demi e Selena recebiam os primeiros atendimentos.

Joe e Ed foram barrados, mas de longe eles ficaram quietos e atentos observando as namoradas. Selena estava acordada e claramente em estado de choque, o olhar perdido e ao mesmo tempo ela estava atenta. Havia um curativo na testa e alguns arranhões de unha no rosto. Já Demi estava quieta demais. A começo Joe se desesperou porque ela estava deitada e imóvel, ele chegou a pensar no pior, mas quando Demi moveu vagorosamente a perna esquerda e ajudou o pessoal da equipe médica a deita-la com muita dificuldade numa maca, ele soube que ela estava viva. O que tinha acontecido com a garota dele? O braço esquerdo estava enfaixado assim como a mão esquerda, o vestido que ele tinha a presenteado estava sujo de sangue e o rosto de Demi estava um pouco avermelhado e com arranhões de unha.

***

Ao abrir os olhos, a luz do interior do quarto a obrigou a fecha-los. O cenho foi franzido ao escutar o barulho que vinha da máquina que fazia a medição dos batimentos cardíacos. Demi tentou abrir os olhos novamente dessa vez conciliando o ambiente onde estava. Um quarto de hospital. Quando ela tentou se mover, a cabeça doeu que chegou a latejar. O que tinha mesmo acontecido para ela estar naquela cama? De cenho franzido, aos poucos ela se lembrou. Morte de Jason, Joseph, Jake, briga com Selena, a carta de Dianna, Mary com uma arma. Assassina de Jason.

   - Droga. – Murmurou baixinho quando se lembrou que o braço estava machucado. Ela nunca tinha se acidentado daquela forma. O máximo foi ralar os joelhos e chocar os dedos dos pés contra as quinas dos moveis.

   - Calma, não se mexa. – O que diabos era aquilo? Será que ela estava ficando maluca? Demi arregalou os olhos ao fitar o rosto da mulher de branco para depois fitar o da que estava ao lado. Eram iguais! Sem tirar nem por. Será que era efeito de algum remédio? – Droga, Bella, você vai confundi-la. – Disse Anna constatando que não tinha sido uma boa ideia deixar Isabella adentrar o quarto de Demi com ela. Se o supervisor a pegasse, bem, aquilo definitivamente não poderia acontecer.

   - Eu só quero saber se ela está bem. – Disse Isabella e Anna massageou o cenho pensando na encrenca que tinha se metido. Demi estava medicada e carregada de curativos. Tinha levado pancadas na cabeça e sido agredida. Confundi-la não era uma alternativa inteligente. – Calma, nós só estamos preocupadas com você. – Disse a Demi que arregalou ainda mais os olhos e engoliu em seco. Certamente ela jurava que estava delirando.

   - Eu já volto, ok? – Disse Anna para Demi que nada disse, apenas se ergueu pensando que estava louca para que pudesse olhar as gêmeas saírem do quarto. – Você nunca esteve nesse quarto, Isabella, você está me ouvindo? – Disse para irmã depois de olhar se estava vindo alguém, e Bella revirou os olhos.

   - Não foi tão ruim. – Não foi ruim? Anna respirou fundo e negou balançando a cabeça.

   - Ela está medicada. E nós duas somos gêmeas. Imagina a confusão na cabeça dela?! É melhor você ir controlar o papai, ele vai matar o namorado dela.

   - Me mantenha informada! – Anna assentiu se despedindo da irmã com um rápido abraço. Inácio tinha decidido contar para Isabella e Hannah sobre Demi, e quando elas ficaram sabendo do que tinha acontecido pelo noticiário, correram para o hospital junto com o pai que estava para enlouquecer de preocupação na sala de espera.

Antes de adentrar o quarto, Anna respirou fundo porque ela era a estagiária responsável por cuidar de Demi enquanto o médico estivesse fora. Não era nada demais, apenas tarefas simples. Ao adentrar o quarto, ela evitou sorrir para irmã e teve que adotar a postura profissional, até porque Demi não fazia ideia de quem ela era.

   - Você está se sentindo melhor? – Perguntou gentilmente buscando pela prancheta sobre o criado-mudo para anotar qualquer queixa da paciente.

   - Minha cabeça está doendo muito. – Resmungou Demi toda manhosa. – Você sabe onde está a minha amiga? Eu não consigo me lembrar de tudo. Depois que a polícia chegou, eu não consigo me lembrar de nada, não consigo me lembrar de tu..tudo. – Anna franziu levemente o cenho com a confusão da frase, mas entendeu que era uma espécie de choque pós-trauma.

   - Não fique agitada, está tudo bem, ok? Sua amiga está sendo atendida. Nós a levamos para cuidar dos ferimentos e daqui a pouco vamos confirmar se está tudo bem com o bebê por exames. – Disse gentilmente para acamá-la e Demi assentiu fechando os olhos pensando em como ela se sentiria culpada se alguma coisa tivesse acontecido a Selena e ao bebê.

   - Eles estão bem? A Sel e o bebê? – Perguntou preocupada e Anna assentiu. – Eu posso ver o meu namorado? Ele está aqui? Eu quero muito vê-lo. Sinto a falta dele. – O olhar foi tão triste e perdido que Anna sentiu vontade de abraçar Demi com forçar e dizer que tudo ficaria bem, que ela não precisava ter medo porque eles jamais deixariam que nada de mal acontecesse a ela novamente.

   - Seu namorado está na sala de espera. Você pode, querida. Só vou pedir para que você não fique agitada. – Disse Anna arrancando um sorriso fraco de Demi que logo fechou os olhos tentando se concentrar para se livrar daquela dor insuportável na cabeça.



Receber os olhares ameaçadores de Inácio não atingia Joe em nada. Ele estava acomodado ao lado de Ed e Steve, que evitou que Inácio partisse para cima dele o culpando por tudo que tinha acontecido com Demi. Não tinha como prever que uma psicopata a atacaria, tinha? Joe cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo apoiando os cotovelos nas coxas. Demi poderia ter.. Ela poderia ter partido. Impaciente, o rapaz se levantou e caminhou sobre o olhar dos conhecidos para longe dali. Ele acabou num corredor sem movimento de pessoas. E se ela tivesse partido? Engolindo em seco, Joe se sentou ao chão com as costas recostadas na parede e abraçou os joelhos.

Ele deveria pensar era que Demi estava viva, com alguns arranhões e um tiro de raspão no braço esquerdo, porém saudável. O ruim era só pensar que por um pouco ela se foi. A ideia era angustiante e o devastava. Angustiado, Joe fechou os olhos e abraçou os joelhos com mais força se sentindo impotente. Inácio tinha razão em culpa-lo, pois caso ele estivesse naquela festa, não permitiria que nada de ruim tivesse acontecido.

   - Joseph? – O cansaço, a preocupação, a culpa, tudo o puxava para um mundo longe do real, um mundo do qual só existia em pensamento. – Joseph? – Ele só olhou porque sentiu o toque no musculo do braço, mesmo assim o cenho estava franzido e demorou um pouco para conseguir assimilar o que estava acontecendo. Espiar o crachá escrito Anna Lovato o ajudou a reconhecer que aquela era uma das irmãs de Demi. Quando Inácio chegou, ele estava acompanhado por Isabella, e quando Anna apareceu, foi uma confusão para saber quem era quem, poucos eram os traços físicos as distinguiam. O fato de Anna estar vestida toda de branco com direito a jaleco e com um estetoscópio nos ombros ajudava. – A Demi quer falar com você. – Ela disse gentilmente estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar, e Joe não soube o que fazer, mas como não queria parecer mal educado, segurou a mão da moça e se levantou. Ele não podia descontar o mal humor nas pessoas. Ninguém tinha culpa dos conflitos internos que ele estava enfrentando.

   - Ela sabe que você é uma das irmãs? – Perguntou tão sério que o cenho chegava estar franzido, ele não conseguia evitar.

   - Não, ela não sabe. – Anna respirou fundo quando eles pararam em frente ao quarto onde a irmã estava repousando. Levar assuntos familiares para dentro do hospital nunca resultava em coisa boa, ainda mais um complicado como aquele. – Posso falar com você? Digo, antes de entrar no quarto? – Perguntou um pouco corada com o olhar intimidante de Joe quando ela o tocou no músculo do braço, e o silêncio foi interpretado como sinal positivo. – Ela está confusa e precisa de repouso, o quadro não é grave, mas é bom evitar stress. – Por que diabos ele a olhava daquele jeito intimidante? Não havia um sorriso no rosto de Joe e nem a sombra dele. – Não vou deixar o meu pai fazer confusão, acredite, ele é impossível quando quer. Só cuide dela, ok?

   - Ok. – Demorou um pouco para ele responde-la, porém quando o fez, Joe quebrou mais o ar sério. – Obrigado por cuidar dela. – Disse assim que levou a mão a maçaneta da porta e se virou para fitar os olhos de Anna. Era uma mulher bonita, e com certeza os traços de Demi eram fieis aos da família: sardas, pele clara e olhos e cabelos marrons. Anna era delicada nos traços do rosto e no corpo, tinha o cabelo longo e um jeito tão singelo e natural, quase tímida, diferente de Demi que era uma força da natureza que vez ou outra ficava quieta e corada.

   - Não precisa agradecer, família em primeiro lugar. – Joe assentiu esboçando um pequeno sorriso que foi retribuído, e quando Anna foi chamada por uma enfermeira, ele assentiu se despedindo.

Os olhos verdes ficaram marejados assim que ele a viu. Todas as defesas foram desarmadas e o coração ficou inquieto no peito. Joe engoliu em seco quando fechou a porta do quarto se demorando o máximo possível porque Anna tinha razão, Demi não podia sofrer com stress ou qualquer desgaste psicológico. Então se ela o visse chorar, ficaria preocupada. As mãos grandes cobriram o rosto para enxugar as lágrimas e Joe tentou não soluçar, mas quando ela o chamou baixinho, foi difícil se conter. Doía na alma vê-la deitada um pouco sonsa com arranhões no rosto, o braço e a mão esquerda enfaixados. Onde estava o sorriso sapeca de sempre? A forma que ela ficava deitada seminua toda insinuosa o fazendo ficar corado de vergonha por conta das coisas que sussurrava. Era a garota dele. A única que ele amava e queria.

   - Joseph? Está tudo bem? – Estava? O voz baixa e inofensiva catalisava a vontade de chorar. Joe respirou fundo e se preparou para se aproximar. O planejado era sorrir, mas passou bem longe.

   - Meu anjo, eu fiquei tão preocupado. – Joe ficou com medo de esmaga-la, mas quando se aproximou só conseguiu envolver Demi num abraço que foi igualmente retribuído mesmo com os múrmuros de dor. – Eu fiquei tão preocupado, amor. – Ele disse se atentando em cada detalhe. Fitou os olhos marrons, estudo o rosto bonito e quando tornou a abraça-la, aproveitou para sentir o cheiro que só pertencia a ela e grava-lo num lugarzinho especial na memória.

   - Eu nunca vou te deixar, amor. – Demi fechou os olhos e se aconchegou nos braços dele se sentindo protegida e amada como sempre.

   - Você promete? – Perguntou emocionado fitando os olhos marrons que carregavam aquele brilho especial que surgia apenas quando ele estava por perto.

   - Prometo. – O beijo que ele recebeu no queixo e depois nos lábios o fez sorrir de olhos fechados. Quando Joe abriu os olhos, ele sorriu ainda mais porque Demi estava de olhos fechados e esperava que ele a beijasse.

   - Eu também prometo. – Disse acariciando a bochecha dela, e em recompensa o sorriso o deixou zonzo de paixão. Era simplesmente lindo e Joe não conseguia pensar em algo melhor do que ver aquela mulher sorrir para ele durante todos os anos que ainda estavam por vir. – Eu te amo. – O beijo não foi intenso e nem prolongado como os de costume. Foi mais um roçar de lábios puro e apaixonado que os fizeram sorrir de testas encostadas. – Vamos, deita. Quero que você descanse o máximo que puder. – Ele disse todo cuidadoso e Demi franziu o cenho sem mover um músculo. Ela preferia ficar no calor dos braços dele.

   - Você vai ficar aqui comigo? Eu estou zonza e com dor de cabeça. Se eu ficar sozinha, vai ser mil vezes pior. – Resmungou manhosa quando Joe a conduziu para se deitar e para a tristeza dela, ele se acomodou a poltrona que ficava relativamente longe da cama.

   - Não sairei dessa poltrona para nada. – Ele disse decidido e Demi franziu o cenho logo se arrependendo porque o supercílio estava com um leve arranhão.

   - Você pode ao menos segurar a minha mão? – Joe riu de como ela era manhosa, enlaçou os dedos e a surpreendeu quando se ergueu para beija-la na boca.

   - Posso beija-la também, gatinha. – Ele sorriu e a beijou novamente feliz demais por Demi estar viva e bem. – Agora, a senhorita vai descansar, ouviu gatinha? – A cada palavra era um selinho, e o melhor era vê-la sorrir.

   - Tudo bem, eu estou mesmo quebrada. – Murmurou fitando o braço que ela nem mesmo tinha coragem de mexer. O ferimento doía e as vezes ela o sentia repuxando quando tentava mover o braço. Os dedos que até ponto receberam. – Espero poder passar o natal longe de curativos. – Tornou a murmurar tateando o rosto com a mão livre encontrando alguns curativos.

   - Você é saudável, e com a sopa de verduras que eu vou fazer quando voltarmos para casa, em duas semanas você vai estar nova em folha. – Demi fez uma careta tão engraçada que Joe riu cheio de vontade de abraça-la forte contra o peito.

   - Não tem nada a ver uma coisa com a outra, isso é mito. – Resmungou e ele riu.

   - É claro que tem, uma alimentação reforçada faz toda diferença. E você vai comer tudo sem reclamar. Acho que agora mesmo vou conversar com o pessoal do hospital para trazer um prato daqueles para você. – Ele não resistia quando Demi murmurava um “Ah não, Joe” toda manhosa, e por isso ele a beijou na boca até que ambos estavam ofegando, porém satisfeitos. – Promete que vai comer tudo? – Ele roçou os lábios aos dela e sorriu assim que fitou os olhos marrons.

   - Só se você ficar aqui comigo. – Os dois sorriram e trocaram um selinho demorado. Os minutos que seguiram foram mais de silêncio e troca de olhares e carinhos que os faziam sorrir confortáveis e seguros.

   - Você pode dormir, não vou sair daqui. – Disse Joe a Demi assim que a viu fechar os olhos e se aninhar mais a cama.

   - Eu não quero dormir. – Disse de olhos entreabertos e Joe entendeu que ela estava cansada. – Nós podemos conversar, amor? – Perguntou timidamente esticando a mão direita para enlaçar os dedos aos dele que assentiu prontamente.

   - Vamos fazer o seguinte, eu vou apagar a luz do quarto e nós vamos ficar apenas com a do abajur acesa. – E foi dito e feito. O ambiente ficou mais agradável para Demi que ainda continuava grogue. – Bebê, você deveria dormir, não? Já são mais de uma hora da manhã. – Por insistência dela, Joe acabou sentado a beirada da cama, e ele confessava que estava louco para ficar agarrado a ela.

   - Você pode me contar o que está acontecendo? Eu estou confusa sobre algumas coisas. – Disse encostando a cabeça no peito dele para que Joe pudesse acaricia-la no couro cabeludo. – Eu estava no banheiro com a Sel. Nós decidimos usar a cabine... Lembro de ouvir a porta do banheiro bater com muita força, depois ouvi passos. Chamei a Sel e ela não respondeu. Fiquei com medo porque eu sabia que alguma coisa de errado estava acontecendo. Ao abrir a porta do banheiro, me deparei com a Mary apontando uma arma para cabeça da Sel e a impedindo de falar. – Joe franziu o cenho porque ele não queria que Demi se estressasse com algo que já tinha acontecido.

   - Eu sei, a Selena contou. Você não deveria ter partido para cima da Mary, ela é perigosa. – Era tão estranho dizer aquelas palavras, mas depois de tudo que tinha acontecido naquela noite, a máscara de Mary caiu.

   - Amor, eu só vou contar porque sei que você não é fofoqueiro. – Demi riu da cara de espanto misturada a de confusão de Joe, e em troca se ergueu para beijá-lo na bochecha. – A Selena está grávida. Eu jamais permitiria que ela fosse machucada. Quando eu a vi refém nos braços daquela maluca, temi por ela e o bebê. Ninguém iria nos salvar. O banheiro era um pouco distante da movimentação da festa. Eles só souberam que algo estava errado quando ouviram os disparos. A porta estava travada com uma barra de ferro, se nós não tivéssemos lutado, estaríamos mortas. – Joe abraçou o corpo de Demi com força que ela gemeu manhosa porque odiava mover qualquer músculo do braço esquerdo.

   - Não diga isso. – Murmurou tocando o rosto dela e o estudando com atenção.

   - É a verdade. Não me arrependo de nada. Eu só não suportaria ver a Sel machucada. É isso que melhores amigas fazem, entende? Uma luta pela outra. Uma defende a outra. Uma encobre a outra. A Mary atiraria na minha cabeça se a Sel não tivesse dado um jeito de empurra-la e tentado tomar a arma.

   - A Mary é perigosa e está longe de ser quem nós pensávamos. Ela é uma paciente foragida de um hospital psiquiátrico. – Joe franziu o cenho e preferiu não olhar para Demi. Aquela mulher esteve entre eles por meses e meses, e ele até tinha a beijado! Era difícil de acreditar. – Ela foi internada justamente porque já matou antes, e confessou ser a assassina do Jason. A polícia está juntando as peças para construir a história.

   - Eu juro que sabia que tinha alguma coisa anormal com aquela maluca estranha.

***

Mal humor era o nome do meio de Inácio. Ele estava irritado e difícil de compartilhar um mesmo ambiente. Começava pelo cenho constantemente franzido que chegou a criar uma marca de expressão na testa. As palavras que o homem dizia eram intimidantes e carregadas de farpas. Ele não esboçou um sorriso desde que tinha chegado e não pretendia esboçar. Tinha sobrado para Joe, depois para Hannah que defendeu o rapaz, e a próxima vítima do mal humor seria Isabella ou Anna, caso ela não aparecesse para dar notícias de Demi. E de tão chato que Inácio estava, Ed e os pais de Selena preferiam esperar no refeitório por notícias.

   - Pai, está tarde. É melhor você descansar. – Bella tinha muito jeito com o pai, sempre conseguia acalma-lo antes que ele explodisse, mas agora estava difícil de administrar a situação, razão pela qual Hannah estava com cara de poucos amigos preferindo ficar entretida com o celular a socializar como ela sempre fazia.

   - Quando a sua irmã aparecer aqui, eu quero estar acordado. – Ele disse um pouco mais calmo, certamente porque o cansaço estava começando a vencê-lo. – Eu vou ligar para o seu tio para levar as duas para casa. – Disse decidido já buscando pelo celular aproveitando também para trocar um olhar intimidante com Steve.

   - Pai, nós estamos aqui para apoia-lo e também queremos saber se está tudo bem com a Demi. – Disse Hannah sustentando o olhar intimidante do pai. – Não queremos ir para casa. – Hannah olhou para Isabella para conseguir ajuda da irmã que assentiu envolvendo os dedos aos de Inácio que assentiu derrotado.

   - Eu quero que as duas vão ao refeitório comer. – Disse Inácio mais a Bella que a Hannah. – Nada de comer besteiras, ouviu dona Hannah? Só deixe-a comer bolo e tomar café com leite. – Disse a Isabella que riu da cara de poucas amigos da irmã. – Vocês tem trinta minutos a partir de agora. – Era sempre daquele jeito. Hannah e Isabella saíram apressadas cada uma com uma nota de cinquenta dólares porque se elas não voltassem em meia hora, Inácio apareceria no refeitório.

   - Você não precisa ser duro com o garoto. – Disse Steve se sentando ao lado de Inácio que cerrou os olhos ao olha-lo. – Ele cuida bem dela. – Insistiu porque não poderia deixar que Joe tivesse a imagem queimada para o pai da namorada. – Ele é um bom rapaz, trabalhador, inteligente e honesto. Não poderia ter alguém melhor para ficar com a Demi. – Inácio franziu o cenho e permaneceu calado fitando o corredor ansioso para que Anna trouxesse notícias de Demi. – Filhos. Você não pode protege-los para sempre. Um dia eles darão os próprios passos e tomarão as próprias decisões, e não há nada que você poderá fazer.

   - Você não é pai do garoto. Por que está o defendendo tanto? – Inácio sustentou o olhar de Steve porque estava começando a ficar irritado. Ele não queria saber de Joe, ele só queria abraçar Demi e mima-la.

   - Passo boa parte do meu dia com o Joe. Não posso deixar que você pense que ele é um vagabundo sem caráter porque eu o conheço, ele é como um filho para mim. – Inácio pensou nas palavras de Steve e as associou a forma que ele cuidava das filhas. Se alguém insinuasse algo de ruim sobre as garotas, ele ficaria bravo porque conhecia cada uma delas. A forma que Steve falava sobre Joe era como um pai protetor, o único problema era que Inácio sabia como garotos poderiam ser impulsivos quando estavam apaixonados porque um dia ele também teve aquela mesma idade, e foi quando engravidou duas garotas e tudo virou uma bagunça.

   - Eu sei o que estou fazendo, é apenas para o bem delas. – Ele não pediu licença para Steve porque a ansiedade o tomou quando Anna se aproximou aparentemente cansada. – Ei meu amor, que carinha é essa? – Perguntou todo carinhoso abraçando a filha que se jogou nos braços dele o abraçando com força. Dentro do hospital havia dias de vitória, mas também os de derrota.

   - Desculpa não aparecer antes. Tivemos uma emergência e.. E não conseguimos. – Inácio odiava quando aquilo acontecia. Anna o olhava nos olhos com medo e lágrimas que não poderiam ser derrubadas naquele ambiente profissional.

   - É dessa forma, meu anjo. Há coisas que acontecem que nós não conseguimos consertar. Vocês tentaram da melhor forma que puderam. É isso que importa. – Ele disse e depois a beijou carinhosamente na testa dando o tempo que Anna precisava para se recompor. Ela seria uma médica dentro de poucos meses, e chorar em público quando algum paciente viesse a óbito não era adequado.

   - Onde estão as garotas? – Perguntou limpando as lágrimas e assumindo a postura que deveria. A garota frágil deveria ficar em casa, não no hospital onde ela deveria se mostrar forte e solidária.

   - Estão no refeitório, e é pra lá que a senhorita vai. – Disse Inácio porque desde que ele chegou ao hospital, Anna não parava quieta. E faria dois dias que ela estava dando plantão.

   - Eu preciso mesmo de um café forte. – Anna franziu o cenho quando enlaçou os dedos aos de Inácio e ele nem mesmo saiu do lugar. – O que foi? – Perguntou cansada escorando a cabeça no ombro do pai.

   - Eu posso vê-la? – Perguntou ansioso e Anna arqueou uma sobrancelha, levou a mão ao pulso esquerdo do pai para encolher a manga do suéter revelando o relógio.

   - Quase duas horas da manhã. Ela está dormindo. E você também deveria dormir já que pode. – Anna sorriu quando viu a careta do pai. Ele estava ansioso e preocupado, e não conseguia esconder.

   - Anna, por favor. Eu estou preocupado. – Murmurou um pouco envergonhado e a filha riu.

   - As visitas estão liberadas. Só que é como eu disse, grandão: ela está dormindo. – Inácio sorriu porque Anna tinha dito tudo que ele queria ouvir: Demi poderia receber visitas. – E o namorado está com ela. – Completou fazendo com que o sorriso do pai sumisse dos lábios.

   - Eu vou conferir se está tudo bem, só quero vê-la, quando o dia amanhecer, converso com ela. – Anna não podia fazer nada porque quando o pai queria alguma coisa, ninguém conseguia convencê-lo do contrário. – Tomar café, mocinha. – E lá se foram mais cinquenta dólares. Ele era exagerado até mesmo naquele detalhe. Inácio instruiu a filha para ficar de olho em Hannah, que poderia realmente aprontar na primeira oportunidade, já que ela conseguia enganar Isabella fácil. E ele seguiu para o quarto onde Demi estava depois de trocar um breve olhar com Steve.

Será que ela iria recebe-lo? Será que estaria acordada? As perguntas eram tantas e a cada passo a ansiedade falava mais alto. Em frente a porta do quarto, Inácio arrumou o suéter ao corpo e respirou fundo. Bater à porta não faria mal, a batida foi de leve, e quem abriu a porta foi Joe sonolento e com a roupa um pouco amassada por conta da posição desconfortável na poltrona.

   - Ela está dormindo. – Disse Joe sem muita paciência, mas também preservando a boa educação que tinha.

   - Só quero vê-la. – Inácio estava tão aflito que a implicância com Joe ficou de lado. Aliás, ficou para outra hora.

   - Eu vou falar com o Sr. Potter e o Ed, daqui a pouco estou de volta. – Joe deu uma última olhada em Demi que dormia tão serenamente para depois fitar os olhos de Inácio. Será que ele deveria deixa-lo com Demi? Anna foi muito clara quando disse sobre evitar stress. E a situação por si só era desgastante. – Não force a barra. – Murmurou um pouco sem jeito, porém firme e com o olhar claro que se alguma coisa acontecesse com Demi, teria volta.

Inácio não disse nada a Joe, sustentou o olhar dele até que o rapaz o desviou porque precisava seguir caminho. A porta do quarto ficou entreaberta, e o coração disparou no peito quando ele a viu dormindo serenamente. Era tão linda e delicada, Inácio adentrou o quarto evitando fazer barulho até mesmo nos passos geralmente pesados das botas.

   - Meu anjo. – Sussurrou de cenho franzido e se amaldiçoando por vê-la machucada. Era covardia feri-la. E ele se sentia culpado. – Eu não vou deixar ninguém te machucar. – Disse baixinho para Demi arrumando a coberta ao corpo e depositando na testa um beijo delicado. O murmúrio de Demi o fez sorrir, mas logo franzir o cenho ao perceber que ela tinha chamado por Joe quando ele enlaçou os dedos aos dela já acomodado a poltrona.

Por minutos Inácio a observou em completo silêncio para não acorda-la. Ela não tinha nada da mãe, nem um traço físico e nem na personalidade. O único detalhe que as ligavam era a paixão pelo desenho, em campos diferentes. Dianna gostava de desenhar roupas e Demi modelava produtos e gostava de desenhar personagens fictícios e inventar novos. Ela era uma garota muito inteligente e persistente que tinha vencido muitas batalhas para conseguir ser uma pessoa honesta e digna.

   - Se eu pudesse escolher, jamais permitiria que nós ficássemos longe. – Disse a Demi triste porque sabia que todo ser humano precisava da presença do pai e da mãe, precisava de carinho e atenção. – Eu adoraria vê-la correr junto com as suas irmãs no jardim de casa brincando feliz. – E ele tentou imaginar Demi quando criança correndo junto com Anna, Bella e Hannah bebê tentando seguir o passo das irmãs mais velhas. – Leva-la para escola, ajudá-la a apagar a velinha do bolo de aniversário e contar historinhas a noite. Mas você já cresceu e se transformou numa mulher tão bonita e admirável. Quando Anna me ligou desesperada falando que você estava aqui machucada, fiquei com tanto medo de perdê-la. Ultimamente não está sendo fácil para mim, filha. Perdi para o câncer a mulher que amei durante a minha vida, perdi o meu pai tem poucos meses e sinto que perdi a sua mãe. De todo o meu coração, você é a única que eu não aceito perder. Nós precisamos consertar, juntos, o que a vida nos fez. Não dá para voltar há vinte três anos, mas nós podemos começar agora a construir a nossa história como uma família. – Inácio franziu o cenho porque tudo que ele tinha dito a Demi era de coração. Os dedos envolveram os dela com mais força e um beijo gentil foi depositado nas costas da mãos.

   - Joseph? – Demi chamou manhosa tentando se erguer, mas logo ficou quieta quando se lembrou do braço machucado. Ela abriu e fechou os olhos, e quando sentiu os dedos soltando os dela, tornou a abrir os olhos procurando por Joe. – Inácio? – Não foi um susto, Demi arregalou um pouco os olhos e sentiu as bochechas corarem quando o pai sorriu para ela.

   - Oi. – Ele disse tímido, porém decidido a não ser repelido. – O Joseph saiu um pouco. – Disse fitando os olhos de Demi que nada disse. Ela parecia tão sonolenta e um pouco confusa. – Eu fiquei preocupado com você. – Disse quebrando o silêncio. – Como você está se sentindo? – Perguntou cobrindo a mão dela com a dele. Demi não soube como reagir a início, as bochechas coraram e ela preferiu não olhar para o pai, porém não o afastou.

   - Cansada. – Disse porque o corpo estava tão exausto que ela o sentia mole e frágil. – Estou com medo de mexer o meu braço esquerdo e a minha mão. – Comentou de cenho franzido fitando o braço com um curativo. – Eles disseram que dentro de poucas semanas eu estarei melhor. – Comentou sem saber ao certo o que deveria dizer para não deixar o assunto morrer. Ela não queria ter que compartilhar de um silêncio incômodo com o pai.

   - Estará. – Inácio sorriu e carinhosamente beijou a mão dela. – Eles estão cuidando bem de você? – Perguntou sorrindo de orelha a orelha porque ele tinha visto um pequeno sorriso nos lábios de Demi que tentou disfarçar sem muito sucesso.

   - Estão, mas eu quero ir para casa. – Ter o conforto e a segurança que um lar oferecia não se comparava a nada. – Você está aqui há quanto tempo? – Perguntou séria puxando a mão da dele e Inácio respirou fundo e penteou o cabelo com os dedos.

   - A sua irmã trabalha aqui. Vim assim que ela ligou avisando que você estava machucada, mas só consegui visita-la agora. – Demi fitou os olhos do pai constatando que ele dizia mesmo a verdade. Ela não precisava de mais alguém para mentir e faze-la sofrer.

   - A sua filha mais velha? – Perguntou tentando lembrar o nome das irmãs por ordem de idade, eram seis garotas e consequentemente difícil lembrar o nome e o rosto que ela só tinha visto por foto.

   - Anna é meia hora mais nova que Bella. Isabella é pedagoga e Anna a nossa futura médica. – Demi assentiu, como ela tinha se esquecido das gêmeas? Deveria ser o cansaço que a impedia de pensar com agilidade e clareza. – As duas estão aqui, a Hannah também.

   - Elas estiveram aqui. Isabella e a Anna. Eu não as reconheci, foi quando acordei, eu estava um pouco zonza e pensei que estava blefando quando as vi. Elas são idênticas? – Perguntou corada e Inácio riu. Isabella e Anna juntas era sinônimo de confusão e muita teimosia quando queriam.

   - Não, Anna é quatro centímetros mais alta e Bella tem o cabelo um pouco mais claro e maior. – Eram detalhes que não tinha como ela perceber no estado em que estava. – Você pode conhece-las amanhã. – Comentou a olhando nos olhos e Demi franziu levemente o cenho.

   - Você ficaria chateado se fosse numa outra hora? Eu não estou muito confortável e não quero ficar sem jeito perto delas. – Era melhor falar a verdade já que não tinha como evitar a vontade que crescia cada vez mais de fazer parte daquela família.

   - Particularmente, eu acho que vocês serão incríveis juntas. Vocês têm muito em comum e eu estou vendo que vai dar muito trabalho para controla-las. – Demi acabou sorrindo junto com o pai. Seria um caos, mas também seria fantástico ter irmãs. – Não ficarei chateado, sei que é algo muito novo para você, só não precisa ter vergonha e receio.

   - Não conta para elas, ok? Talvez amanhã eu me sinta melhor. Eu só não quero que elas achem que eu sou chata ou sem graça. – Ter a aprovação das irmãs seria muito importante para ela conseguir se enquadrar na família Lovato, e do jeito que ela estava grogue e desanimada, ficaria difícil enfrentar uma situação como aquela.

   - Você não é. Mas vamos fazer do seu jeito. – Eles sorriram e pela primeira vez aceitaram o silêncio, que não foi nada ruim. A sensação de estar com Inácio era tão boa que Demi se sentia estranhamente confortável e segura, e ela já começava a pensar que deveria se policiar para ter receio para evitar uma futura decepção.

   - A minha mãe foi embora. – Comentou e não conseguiu evitar o bocejo. – Ela deixou uma carta hoje, fui ao aeroporto tentar impedi-la, mas cheguei tarde. – Murmurou triste e Inácio envolveu os dedos dela da mão direita com os dele.

   - Eu também recebi uma carta dela. Dianna viveu muitas coisas ruins. Não foi fácil para ela e muito menos justo, filha. Espero de coração que ela seja feliz. – Demi assentiu pensando nos maus bocados que a mãe já tinha passado.

   - Ela contou tudo para você? – Perguntou com um pouco de receio e Inácio assentiu. – Eu odeio que ela tenha passado por tudo isso. Eu gostaria de poder fazer algo por ela. – Inácio era o único que podia entende-la porque um dia ele tinha amado Dianna.

   - Eu me sinto culpado. – Deixou escapar e quando Demi o olhou como se dissesse que ele não tinha culpa, Inácio deu de ombros e respirou fundo cansado. – A melhor coisa dessa história toda é você. Eu e a sua mãe somos sortudos. – Dava para ficar mais corada? Demi não conseguiu parar de sorrir sentindo as bochechas quentes. – Não está com sono? – Ele perguntou todo carinhoso se levantando para arrumar a coberta ao corpo dela.

   - Estou com muito sono. – Disse envergonhada e Inácio assentiu se acomodando mais a poltrona para descansar também.

   - Eu posso ficar aqui? Ou você prefere que eu chame o seu namorado? – Joe ou Inácio? Demi optaria pelo namorado sem pensar duas vezes, ela adorava a ideia de ter toda atenção de Joe, mas naquele momento, ter a companhia do pai não era ruim, a sensação era muito boa e ela não podia negar que estava ansiosa para passar mais tempo com ele.

   - Você pode ficar. – Disse depois de muito pensar. – Mas se você quiser ir para casa, tudo bem. Essa poltrona é bastante desconfortável. – Bem, ela não sabia se era, só não queria ficar sem ter o que falar. Na última vez que tinha dormido numa poltrona, foi quando Joe passou mal, e bem, quando ela dormia, só o sono que importava.

   - Nem tanto. Já dormi em lugares piores. Qualquer coisa é só me chamar. – Disse e Demi assentiu prontamente. Ela não podia negar que estava com receio e um pouquinho sem jeito. – Boa noite, filha. – O beijo na testa foi inesperado, mas nada ruim. Demi sorriu emocionada quando fitou os olhos do pai que também sorriu tornando a arrumar a coberta ao corpo dela todo cuidadoso e protetor.

***

Selena estava cansada. Passar a noite no hospital foi estressante e exaustivo porque demorou para pegar no sono. Sentada a maca vestindo apenas uma camisola, toda hora Sel fitava a porta do consultório médico fantasiando Mary o invadindo apontando uma arma para a cabeça dela. Havia apenas alguns arranhões, nada tão sério. O problema era o trauma e o medo que a consumia.

   - Srta. Gomez? – Sel engoliu em seco quando ouviu a voz da médica, porém pode respirar aliviada. Ela desviou o olhar da porta ainda com receio de acontecer algo parecido com o que aconteceu no banheiro, e fitou os olhos azuis da médica. – Está tudo bem com o bebê. Ele está com cinco semanas e precisa que a Srta. repouse o máximo que puder. – Selena sorriu fraco levando a mão ao ventre. Ela jamais se perdoaria se algo de ruim tivesse acontecido a inocente vida que carregava. – Eu vou encaminha-la para o quarto, a senhorita precisa descansar. – Para ela conseguir se livrar dos pais e Ed deu muito trabalho, envolveu até a ajuda do médico que respeitou a decisão de não contar aos familiares sobre a gravidez.

   - Quando como, fico enjoada. – Disse arriscando olhar para porta só para depois fitar os olhos da médica.

   - Qual foi a sua última refeição? – Como ela diria aquilo? Selena ficou tão sem graça que as bochechas coraram.

   - O café da manhã de ontem, mas eu o vomitei. – Murmurou. Não deu muito tempo de sentir fome, à tarde o passeio com Ed no shopping foi estressante, depois no apartamento de Demi teve todo o choque por descobrir a gravidez. E na festa da Gyllenhaal estava fora de cogitação.

   - Posso chama-la de Selena? – A médica perguntou se acomodando a maca como Sel que assentiu com receio do que ouviria. – Selena, você precisa comer para continuar saudável e também para manter o bebê, mamãe. Ele ainda é tão pequenino e precisa de você mais do que você imagina. Não é todo alimento ou cheiro que a deixará enjoada. Você deve comer sem pensar no possível enjoo. Se acontecer, enfrente como uma situação normal porque faz parte da gestação nesse primeiro estágio. Entendo que o que você passou ontem à noite foi apavorante, e saiba que nós a ajudaremos enquanto for necessário, mas pense que agora também tem o bebê. – Eram tantas coisas! Selena cobriu o rosto com as mãos e soltou a respiração relaxando o corpo. Estava tão difícil naqueles últimos dias. Primeiro foi ficar afastada de Demi por três meses, depois as brigas com Ed, a recém descoberta da gravidez e a inacreditável descoberta sobre Mary. Ela tinha compartilhado segredos e momentos com uma assassina! Se Mary quisesse machuca-la, ela poderia ter o feito facilmente nos momentos que as duas ficavam sozinhas. De quebra ainda tinha Jake que a apavorava.

   - Eu não estou bem, psicologicamente falando. – Disse tristonha. Não era normal se sentir confusa, insegura e cansada o tempo todo. – Tudo que eu quero é cuidar do meu bebê junto com as pessoas que amo, mas eu tenho medo de o Jake ser solto e voltar a me assediar, da Demi ficar sem falar comigo, da Mary tentar nos machucar. Não consigo ficar em paz porque não consigo parar de pensar que alguma coisa de ruim vai acontecer. – Era exatamente aquele ponto. Desde que Jake tinha entrado na vida dela, as coisas viraram uma bagunça.

   - Você não precisa ter medo, não mais, essas pessoas não vão te machucar. – Sel franziu o cenho e segurou o choro. – Quero que volte para o quarto, vou pedir para prepararem uma refeição forte e saudável. Depois que você descansar, vou encaminha-la a nossa psicóloga.

Um sorriso conseguia amenizar uma situação que poderia se tornar drástica. Selena até um abraço reconfortante recebeu e se sentiu muito melhor. Ela faria tudo sugerido pela médica pensando no bem do bebê que esperava. Ao sair do consultório, Sel estava mais leve e com a esperança de que tudo ficaria bem, mas quando ela o viu a esperando de braços cruzados e tão sério, o frio na barriga a incomodou. Despistar Ed deu muito trabalho, mas agora lá estava ele em frente a sala a esperando.

   - Os seus pais estão preocupados. Eu estou preocupado. – Disse Ed a olhando e aos poucos ele se aproximou. – O que está acontecendo com você, pequena? – Perguntou carinhosamente a abraçando pela cintura e Sel se entregou ao abraço se sentindo tão segura e amada nos braços do homem que amava.

   - Ed. – Chamou envolvendo o pescoço dele com os braços e em troca Ed a acariciou no cabelo da nuca a olhando fixamente. – Eu amo muito você. – Disse emocionada e o rapaz sorriu também emocionado.

   - Eu também amo você. – Ele disse esboçando um pequeno sorriso para depois beijar os lábios dela carinhosamente. – Por que você está chorando? – Perguntou confuso quando Selena encostou a cabeça no peito dele e começou a chorar baixinho. – Ei, o que foi meu anjo? – Perguntou erguendo o rosto dela para que pudesse olha-la nos olhos e limpar as lágrimas. – Eu estou aqui para você. Não chora, por favor. – Se ela chorasse, Ed tinha certeza que ele também acabaria em lágrimas. – Amor, não chora. – Pediu novamente a abraçando com força contra o peito deixando que as lágrimas rolassem porque ele tinha ficado com tanto medo de perde-la quando soube o que estava acontecendo naquele banheiro. Se a perdesse, ele simplesmente não suportaria.

   - Só me abraça. – O abraço durou o tempo suficiente para que conseguissem se acalmar. E quando eles se olharam, trocaram um beijo intenso. – Eu preciso falar uma coisa. – Disse fitando os olhos de Ed que assentiu um pouco tenso.

   - Quer ir para o quarto? – Perguntou colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

   - Quero caminhar um pouco mesmo que seja pelos corredores. – Selena sorriu sem jeito e Ed assentiu enlaçando os dedos aos dela para que eles pudessem começar a caminhar.

   - Então. – Ed a abraçou de lado sem quebrar o laço dos dedos e Sel o envolveu com o braço livre. – Como você está se sentindo? – Perguntou a observando.

   - Sinceramente? Eu não estou bem. Estou com medo e abalada com tudo que aconteceu. Fiquei com tanto medo de perder a Dem. Quando a vi sangrar, pensei que ela.. – Selena franziu o cenho e fechou os olhos tentando esquecer a cena. – Foi horrível. – Disse baixinho.

   - Eu estou aqui e não vou deixar nada de ruim acontecer. – Estava fora do alcance de qualquer ser humano impedir algo ruim, mas Selena acreditava que aquele homem bonito que a abraçava a protegeria de todo o mal.

   - Eu dividi segredos com ela. Eu gastei meu tempo com ela. Isso não é normal e eu não sei como vou confiar nas pessoas de agora em diante.

   - Não tinha como saber. Ninguém imaginava. – Disse Ed receoso se lembrando dos momentos que tinha compartilhado com Mary. – O que nós podemos fazer agora é esquecer, passado é passado. Vamos fazer dos nossos dias os melhores daqui pra frente sem Jake e Mary. Foram momentos ruins, mas deles nós aprend..

   - Eu estou grávida. – Ed continuou falando por alguns segundos até que ele entendeu o que aquela pequena frase significava. Selena sustentou o olhar dele procurando por raiva ou qualquer sentimento negativo como esperava, mas só havia surpresa.

   - Você está... grávida? – Disse Ed. Ele tinha engolido em seco e estava um pouco pálido. Não era um sinal, era? Selena assentiu com medo ainda fitando os olhos dele. – Grávida? – Repetiu e ela se preparou mentalmente para enfrentar a fúria de Ed, mas ele sorriu e a abraçou com força quase que a sufocando. – Grávida pequena? – O sorriso que Selena esboçou foi desjeitoso, mas ainda assim era um lindo e feliz sorriso que se alargou nos lábios porque Ed a olhava com tanta paixão e felicidade.

   - Nós vamos ter um bebê. – Disse com todas as palavras que ele precisava ouvir.

Compartilhar com Ed a notícia que estava grávida fez com que realmente fosse verdade no mundo de Selena, pois a alegria, amor e felicidade desencadeados da espera de um bebê tomou conta do coração e a fez tão feliz e especial. Ed a abraçou e quando a beijou sorrindo, levou a mão ao ventre para acaricia-lo com cuidado e respeito. O melhor de tudo foi esquecer que estavam num corredor de hospital e o motivo por estarem ali.

***

   - Ei! Eu sei que você me ama, não precisa se entregar com esse sorriso de orelha a orelha. – Disse Demi sorrindo quando Selena fechou a porta do quarto e feliz, correu para cama onde ela estava deitada.

   - Você é sempre uma chata. – Disse Sel sorrindo e abraçando Demi com força, e ela reclamou porque estava toda manhosa sem coragem para mexer o braço.

   - Vai com calma, ok? Eu sou um bebê e preciso de cuidados. – Demi mostrou língua e Selena revirou os olhos com tanta vontade. – Falando em bebê, como está o meu pequeno? – Perguntou acariciando o ventre de Sel com a mão boa para depois sorrir sem graça porque Selena a olhou feio por conta da forma exagerada que ela tinha dito.

   - Está muito bem. Estou de cinco semanas. – Disse e Demi franziu o cenho.

   - Sel, você está grávida, tudo bem. Mas pelo amor de Deus, não faça isso comigo. O que diabos são cinco semanas? Eu não consigo racionar com essa contagem de tempo, então nós vamos trabalhar com meses e dias, ok? Ah! Os dias têm limite, e no nosso caso, vamos considerar apenas até trinta. Agora traduz, o que são cinco semanas? – Selena gargalhou e só não apertou as bochechas da amiga porque ela reclamaria.

   - Cinco semanas são... Hum.. Um mês nove dias, ou seja, cinco semanas. – Disse e Demi respirou fundo aliviada.

   - Viu como é mais simples e claro? Nada de cinco semanas. – Resmungou. – Imagina só quando você estiver com, sei lá, cinquenta semanas, como vamos saber que já passou dos nove meses? – Selena revirou os olhos e se acomodou a cama ao lado da amiga.

   - Dem, uma gestão dura em torno de quarenta semanas. Você não estudou biologia? Ah é, lembrei que você matava todas as aulas para fugir com o André para fazer Deus sabe lá o que.

   - Não sou obrigada e nem me arrependo. E você não vai querer saber o que eu e o André fazíamos. – Ela esboçou um sorriso sapeca apenas para provocar Selena. – Você contou, Srta. Cinco semanas?

   - Contei. Ele está radiante e eu tive que ameaça-lo. Agora nós dois estamos num barco só e temos que nos preparar para enfrentar a tempestade que é o meu pai. Ele queria contar, e eu fiquei tipo: você perdeu o juízo? – Demi riu junto com Selena. Era muito reconfortante saber que tudo estava dando certo com Sel e Ed.

   - Estou muito feliz por vocês. – Disse sorridente. – Vai dar tudo certo. Eu estou muito ansiosa para cuidar dele. Vocês têm preferência? – Perguntou distraída acariciando o ventre de Sel que nada fez, era estranho, mas nada desconfortável, bem pelo contrário.

   - O Ed quer uma menina. Estarei satisfeita independente do sexo. E você? Como está? – Perguntou fitando o braço com um curativo limpo e os demais arranhões de Demi.

   - Quebrada. – Ela forçou um sorriso e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha com a mão boa. – Meu pai passou uma parte da noite aqui comigo. – As bochechas de Demi coraram bruscamente quando ela percebeu que tinha chamado Inácio de pai. – O Inácio. – Corrigiu-se engolindo e seco e Sel sorriu a olhando. – Nós conversamos e ele cuidou de mim. – Disse ainda envergonhada fitando a estampa da camisa. – Eu quero muito isso, quero tanto, mas eu preciso estar atenta a todos os detalhes, não quero ter meu coração partido novamente.

   - Você realmente precisa. Todos nós, Dem. Siga o seu coração. Eu estarei sempre ao seu lado para vibrar com você nos momentos bons e também para caso aconteça algum imprevisto, te ajudar a catar todos os pedacinhos do seu coração. Irmãs são pra isso. – Difícil foi abraçar Selena, mas Demi o fez do jeito que conseguiu. O que de fato importava era estar nos braços daquela mulher.

   - Eu te amo muito. – Disse Demi fitando os olhos marrons da amiga que sorriu encostando a testa a dela. – Sel, eu tenho seis irmãs. – Comentou sorridente e Selena arqueou uma sobrancelha. – Sete. – Corrigiu e as duas sorriram. – Não precisa ter ciúme, eu estou aqui para todas. – Brincou, mas acabou corada. – Falando sério, eu não sei se estou preparada para conhece-las. Estou com medo de parecer chata ou elas simplesmente não gostarem de mim.

   - Dem, primeiro: você não é chata, você só é uma adolescente presa no corpo delicioso de uma mulher. Resumindo, se você largar essa coisa estranha de criança de desenho animado, Batman, e essas coisas de nerd, você seria mais legal. E segundo: não tem como não gostar de você. É tipo uma lei da natureza, algo assim, você é simplesmente alguém que as pessoas querem conversar. – Demi levou a mão a de Selena e sorriu quando fitou os olhos marrons. O brilho deles era fantástico! Dava para perceber claramente como Sel estava feliz através de um simples olhar.

   - Eu conheci a Anna e a Isabella ontem, tomei um susto porque elas são idênticas e eu tinha acabado de acordar tonta, o Inácio disse que elas não são idênticas, mas eu aposto que ele está enganado. Hoje a Anna trocou o meu curativo. Acho que ela não sabe que eu sei que ela é minha irmã.

   - Eu as vi. E a mais nova também, ela defendeu o Joe quando o seu pai o culpou por você estar machucada. – Demi franziu o cenho. Joe não tinha comentado nada.

   - A Hannah. – Disse e Sel assentiu. – Ele não gosta do Joe e nem do Augusto, o namorado da Hannah. Não sei o que vou fazer, eu só não posso ficar sem o meu gatinho.

   - Eu já disse que odeio esses apelidos? – Resmungou e Demi riu da careta de Sel. – Você não o chama assim quando vocês estão transando, chama?

   - Isso não é pergunta que se faça, Srta. Enxerida. Às vezes sim, às vezes não. Depende muito do nosso ritmo. – Selena tornou a fazer careta, mas riu. – Previsão de quando vamos sair daqui? Quero ir para casa. – Resmungou manhosa se acomodando mais a cama que estava longe de ser confortável como a dela ou a de Joe.

   - Provavelmente amanhã. Ainda tem muita coisa para resolvermos sobre isso. Já estou imaginando o detetive Pine adentrando esse quarto para te interrogar.

   - Eu só quero que isso acabe. – Disse Demi séria. – Vou pedir demissão. Quando eu chegar em casa, vou escrever a minha carta explicando os meus motivos. – Chegar naquela decisão foi difícil, era o sonhado emprego desde a época da faculdade, mas não dava para continuar, não depois de tudo que tinha acontecido. – Tenho dinheiro no banco, não é muita coisa, mas é o suficiente para abrir um escritório. O Joe pode programar para mim e eu fico com a parte gráfica, eu não sei, é apenas uma ideia. Nós temos muito conhecimento na área de TI, não vamos passar dificuldade, é o que importa.

   - Se você precisar de uma secretária e de alguém para a parte da administração, estou à disposição. – Demi esboçou um pequeno sorriso quando Sel a olhou nos olhos. Seria um novo começo, e o melhor era que ela poderia ficar mais tempo com as pessoas que amava.

***

   - Quero que você seja o mais coerente possível. – A delegacia estava um caos, mas o motivo não era ruim. Do lado de fora da sala, vários policiais comentavam fervorosamente sobre a prisão de Mary e do depoimento de Jake Gyllenhaal que acontecia exatamente naquele momento dentro da sala sendo elaborado pelo Detetive Pine. – Me conta tudo que aconteceu naquela noite. Precisamos do seu depoimento para encerrar o caso. – Chris fitou os olhos de Jake que assentiu um pouco assustado.

   - Eu vim para Nova York porque minha empresa estava falindo. – Começou a dizer fitando as algemas geladas que envolviam os pulsos. – Foi alguns meses atrás, seis meses para ser específico. Procurei o meu avô porque eu precisava da ajuda dele. A Gyllenhaal é uma das maiores empresas desse país e se eu conseguisse ao menos um patrocínio, já ajudaria. Meu nome estava na lama, o meu sócio estava prestes a quebrar o contrato e em casa a minha esposa com o nosso recém-nascido. Meu avô disse que ajudaria com a condição que eu teria que ficar em Nova York para aprender com ele a como administrar uma empresa. – Jake olhou para o detetive e depois para os outros homens na sala. Todos o olhavam com atenção. – Durante um tempo eu fiquei na casa dele estudando o que ele pedia, fui a Gyllenhaal poucas vezes. Conheci a Mary lá no departamento de Design. Ela era nova na empresa e não demorou muito para começarmos a sair. Era só sexo para mim, sempre deixei claro e ela disse que entendia. Quando meu avô descobriu, ele não gostou...

   - Você tem três crianças e uma esposa. Onde você está com a cabeça? – Jason estava furioso e Jake sem saber o que dizer ao avô. – Eu não criei um canalha! – Infelizmente tinha soado alto o suficiente para que quem estivesse do lado de fora ouvisse, e era Mary quem estava do outro lado da parede se vestindo porque Jason tinha a flagrado com Jake.

   - Eu não vou troca-los por ela. – Disse Jake tentando não ficar alterado e muito menos destratar o avô. – Vô, eu só estou me divertindo. Em casa as coisas não estão boas, minha empresa está falindo. Eles dependem de mim, todos eles! O Marcus, a Susan, as crianças. Eu estou acabado, só preciso colocar a cabeça no lugar para conseguir reverter essa situação. Um pouco de sexo não fará mal.

   - Você está saindo com essa moça e Demetria. – Jake engoliu em seco com o olhar que recebeu do avô e ele queria muito que Mary não tivesse ouvido aquela parte. – Demi é uma boa garota e não merece ser usada dessa forma. É melhor você acabar com isso, caso queira continuar tendo a minha ajuda.

   - Eu estou com a Mary por sexo. Demi me faz esquecer que o mundo me odeia, ela é uma boa companhia em todos os sentidos. – Jake franziu o cenho e preferiu ficar em silêncio observando o avô andar de um lado para o outro claramente nervoso.

   - Eu não quero você perto delas. Principalmente da Demi. É melhor você acabar com isso antes que as pessoas descubram. Eu não quero mandar você para casa do mesmo jeito que chegou. Garanto que Susan e as crianças não vão passar fome, mas será apenas isso. – Tinha saída? Jake assentiu e antes de virar as costas, abraçou o avô com força e o beijou na bochecha. Quem sabe um dia ele seria alguém tão importante como Jason? Jake observou a sala presidencial e respirou fundo.

   - Vou para casa, você não vem? – Perguntou fitando os olhos azuis idênticos aos dele.

   - Ainda tenho trabalho para fazer, não faço ideia de quando vou chegar, não me espere para o jantar. – E foi a última vez que ele ouviu a voz do avô. Ao sair da sala, Jake procurou por Mary encontrando-a escorada numa parede e esboçando um sorriso convidativo para ele que também sorriu.

   - Vamos continuar o que começamos? – Ela era ousada o suficiente para deixar qualquer homem fraco por sexo como Jake hipnotizado e completamente envolvido. – Vou deixar você brincar com o outro buraquinho. – Ele sorriu torto e a beijou com fome e desejo começando a aperta-la nas pernas nuas enquanto Mary o arranhava nas costas. Ela não o deixou em paz desde o dia em que se conheceram, sempre estava ligando e insistindo, estava completamente obcecada por Jake e não deixaria que nada os separassem.

   - Vamos para o carro? – Ele estava tão excitado que tinha medo do botão da calça estourar, e Mary se esfregando a ele e o apertando não ajudava em nada. De nada adiantaram as palavras de Jason, apenas o que importava era o prazer que um bom sexo poderia proporcionar.

   - A gente começa no elevador e no carro você tem a sua recompensa. – Disse Mary o mordendo no lóbulo da orelha e Jake assentiu prontamente envolvido o bastante para se lembrar que era casado.

Aconteceu como eles planejaram. Uma rapidinha no elevador e quando chegaram ao carro aos beijos, Jake respirou fundo quando sentiu o celular vibrar e depois tocar quebrando o clima.

   - Eu preciso atender. – Ele disse fitando brevemente os olhos de Mary para depois o nome de Susan no visor do celular.

   - Você não precisa, Jake. – Até mesmo a fala ficava diferente. Mary sustentou o olhar de Jake sem ousar em desvia-lo e interrompeu a ligação. – Não pense que eu não ouvi o que você e o Jason estavam conversando. Você está comendo a Demi? – Jake mordeu o lábio inferior quando teve a gravata puxada, mas logo sorriu encostando Mary na parte de trás do carro.

   - Estou. Ela é uma puta de uma gostosa, eu não poderia deixar passar. – Sussurrou no ouvido dela completamente descarado. – E eu já te disse, você é apenas sexo para mim. Você e ela. Se eu pudesse, juntaria você, ela e a Srta. Gomez com aqueles peitos fantásticos. Eu comerei as três ao mesmo tempo e sem parar. – Ele tornou a sorrir quando Mary assentiu o olhando nos olhos.

   - O que você vai fazer sobre o seu avô? Quando ele souber que você ainda está comendo nós duas, a coisa vai ficar feia para você. – Jake sorriu arqueando uma sobrancelha enquanto roçava o corpo ao de Mary para provoca-la.

   - Ele só não precisa saber. Vai ser o nosso segredinho, princesa. – Eles trocaram um beijo longo já se preparando para adentrar o carro quando o celular de Jake começou a tocar novamente.

“Cadê você, Jake? O leite das crianças acabou e Peter está com febre. Eu não sei o que fazer, Marcus não está em casa.” – Susan.

Ao ler a mensagem, Jake assumiu outra postura. E enquanto ele conversava no celular completamente sério com a esposa, Mary o observava minuciosamente desde os detalhes físicos ao jeito de se comportar. Ele era dela, apenas dela e não havia Jason, Demi ou Susan para impedi-la de ficar com Jake.

   - Eu precisei sair para depositar o que eu tinha na carteira na conta da minha esposa. – Disse Jake depois de umedecer os lábios. – Na caminho eu acabei esbarrando com a Srta. Lovato, ela estava chorando porque tinha brigado com a mãe. Eu não podia deixa-la sozinha. Pedi para ela esperar e segui caminho para o primeiro caixa eletrônico. Eu tinha duas mulheres me esperando. Por conta da distância, ficou melhor encontrar a Mary primeiro e despacha-la. Eu estava mais interessado em dormir com a Demi. Eu gostava de como ela era carinhosa comigo e completamente inocente, ao contrário da Mary. Tudo que contei foi o que realmente aconteceu naquela noite: Meu avô descobriu sobre a Mary e a Demi, eu transei no elevador com a Mary, depositei dinheiro na conta da minha esposa, me livrei da Mary e passei o resto da noite com a Demi. Eu não fazia ideia que estava comendo uma louca.

O caso foi encerrado quando o material encontrado na casa de Mary chegou às mãos do Detetive Pine. A pistola que usava o mesmo projétil que o encontrado no corpo de Jason e as fitas que mostravam claramente Mary atirando contra o dono da Gyllenhaal.


Continua... Demorou muito, mas saiu! Primeiro desculpem pela demora, é aquela velha história: final de semestre. Minhas provas acabaram ontem e pelo visto, estou de férias! Bem, voltando a fanfic, espero que vocês gostem dessa parte do capítulo, está oficialmente encerrado o caso Jake. Então, eu estava conversando com a Brunna, e acho que vou dividir essa fanfic em duas temporadas, pois ainda tem muita coisa para acontecer e nós já estamos no capítulo 53 parte dois. O que vocês acham? Obrigada pelos comentários, visualizações e compreensão! Até qualquer hora! Beijo e um abraço apertado.