11.8.17

Capítulo 47

Os versos de American da Lana Del Rey soavam em baixo volume pelos alto-falantes do notebook sobre a mesa de vidro. A música era tranquila e o plano de fundo perfeito para aquele final de manhã onde o sol brilhava timidamente no céu que carregava algumas nuvens escuras. A janela proporcionava uma vista incrível da cidade. E era lá onde Demi estava escorada no parapeito observando perdida em pensamentos vez os prédios, vez as pessoas que caminhavam pelas ruas da cidade mais parecendo formigas.

Nova York tinha daquelas coisas estranhas quando estava chovendo. Coisas estranhas seriam a falta de pessoas andando pelas calçadas, e quando tinha alguém, esse estava armado com guarda-chuva e um belo cachecol enrolado no pescoço e jaqueta que parecia pesada. Vale ressaltar a quantidade de táxi que compunha boa parte do trânsito, que mesmo com a chuva continuava turbulento e estressante, aliás, a fileira de carros estava maior e caótica por conta da chuva, pois algumas pessoas optavam por táxis a andar a pé.

Era bom pensar na vida enquanto admirava a cidade que tanto amava. Os pensamentos giravam em torno de Joseph, depois estavam voltados para Dianna, as flores que tinha recebido do pai no dia do aniversário, algumas coisas sobre Design e então lá estava Joseph novamente para fazê-la suspirar de preocupação e saudade. Ele tinha enviado mensagem quase às nove e meia avisando que já tinha chegado. E bem, Demi estava preocupada e no horário, impossibilidade de sair do escritório.

Assim que a música foi finalizada com o último verso Like an American, o celular de Demi vibrou e pouquíssimos segundos depois começou a tocar. Finalmente o horário de almoço que tanto tinha esperado! Ela nem mesmo desligou o notebook, abaixou a tampa obrigando o aparelho a trabalhar em pouca energia, pegou o blazer que tinha ganhado da mãe na cabeceira da poltrona, o celular sobre a mesa e a bolsa da prateleira.

A pressa era tanta que a chave do escritório tinha caído quando Demi a guiou para o miolo da maçaneta para trancar a porta. O óbvio era agachar para pegar a chave, e foi o que Demi fez. Tratar da vida alheia era o passatempo favorito daquelas mulheres! Só podia ser. Infelizmente ela ouviu comentários maldosos das colegas que passavam e só não as respondeu por que estava louca para almoçar com Joseph. Uma coisa era certa, se continuasse daquela forma, Demi tinha certeza que perderia a paciência e a briga seria feia naquele departamento.

   - Vou almoçar com o Joe. – Disse a Selena assim que se aproximou da amiga que ainda estava concentrada no trabalho.

   - Humm.. – Murmurou Selena ainda focada no que estava fazendo no notebook e segundos depois ela relaxou na cadeira e a girou ficando em frente a Demi. – Já estamos no horário de almoço? – Perguntou adentrando o cabelo com os dedos para jogá-lo de lado e Demi assentiu mordendo o lábio inferior. Ela gostava da cor do cabelo de Sel e de como ele parecia pesado volumoso. – Você não quer esperar o Ed voltar com o carro? Posso te levar ao apartamento do Joe. – Disse fitando os olhos de Demi que negou com um murmuro.

   - Não estou longe de casa. Obrigada Sel. – Agradeceu um pouco envergonhada e a amiga franziu o cenho estranhando. – Daqui a pouco eu estou de volta. – Disse arrumando a bolsa no ombro se preparando para partir.

   - Se quiser, passo para te buscar. Nós vamos almoçar com as crianças hoje. Ana estava com um dentinho mole e o Ed a levou ao consultório odontológico. – Selena sorriu apaixonada e Demi sorriu porque estava feliz por Sel e Ed. – Você tinha que ver o Harry desenhando, ele leva jeito.

   - Leve ele e a Ana lá para casa no final de semana, nós podemos fazer uma espécie de noite do pijama. O que você acha? – Sugeriu e Selena assentiu animada com a ideia. – Dê um beijo neles, eu já estou indo. – Quando Selena se levantou para abraça-la, Demi gostou da sensação maravilhosa de estar segura nos braços da amiga. E a felicidade e paz que a invadiu? Elas se olharam e Demi sorriu fitando os olhos de Sel.

   - Até mais tarde, Demetria. – Selena a beijou na bochecha. O “Demetria” não tinha soado mal e muito menos para pirraça-la como Sel costumava fazer. Assentindo, Demi sorriu para a amiga e no caminho em direção ao elevador, ela olhou para trás encontrando Selena em pé a olhando e com um pequeno sorriso nos lábios. Trocaram um aceno, um sorriso e olhares confidentes e então Demi estava acomodada no elevador.


A chuva do dia passado tinha dado trégua durante a madrugada, mas no começo da manhã os pingos fracos estavam de volta. E ainda continuavam caindo timidamente, sorte era que não chovia o suficiente para molhá-la. Como não queria perder tempo, Demi apressou o passo e ela confessava que estava ficando cansada porque calçar sapato de salto e andar rápido não era uma boa combinação. Levou cerca de quinze minutos para chegar ao Rockefeller Center, mas uma vez que estava lá, eram poucos metros até o apartamento de Joe.

Quando chegou ao prédio, Demi ficou com um pouco de receio porque o síndico estava na portaria e não parecia muito satisfeito, mas mesmo assim ela disse um educado “Bom dia” e o homem respondeu. Como o elevador estava nos andares acima, Demi optou por subir de escada e não foi ruim já que ela ainda sentia a adrenalina da caminhada até o prédio correndo no sangue. A chave do apartamento dele estava na bolsa porque Demi tinha passado a noite lá para cuidar de Lucy naquela noite como Joe tinha pedido.

Será que tinha problema ela entrar sem avisar? Demi resolveu bater à porta antes de tomar qualquer atitude. Foram três batidas e cinco minutos depois ela bateu novamente, e ninguém abriu. Se Joe achasse ruim, ela pediria desculpa por destrancar o apartamento dele com a chave extra e adentrá-lo.

   - Joseph? – Chamou com um pouco de receio de avançar depois de trancar a porta. Tudo estava tão quieto. Demi deixou a bolsa no sofá e resolveu caminhar para cozinha a procura do namorado. – Amor? – Chamou porque não queria constrange-lo ou assusta-lo. Mas Joe não estava na cozinha. Ele tinha comido o café da manhã que ela tinha preparado antes de sair, prova disso era a xícara e o prato na pia. Ao menos isso! – Lucy? – Chamou pela cadelinha, mas nada. Pelo silêncio, Joe deveria estar dormindo. Demi caminhou em direção ao quarto dele encontrando a porta entreaberta.

As cortinas de cor azul estavam fechadas e a pouca luz do sol fazia com que o azul fosse refletido por todo quarto criando um ambiente maravilhoso para dormir. Abrindo a porta com cautela e adentrando ao quarto, o coração de Demi bateu mais rápido e o sorriso feliz nasceu nos lábios. Existia cena mais bonita que aquela? O cabelo sempre arrumadinho dele estava arrepiado com direito até um topete desajeito e absurdamente charmoso. Joe estava tão tranquilo dormindo. E o detalhe que deixava aquela cena linda, era que Lucy também estava dormindo esticada encostada no dono e o braço forte de Joe abraçava a cadelinha e o queixo barbado dele estava encostado perto da orelhinha de Lucy.

Tentada a tocá-lo, Demi tomou todo o cuidado do mundo ao se sentar a beirada da cama para acariciar o maxilar de Joe. Ela o amava tanto! Ele e aquela cadelinha. Os olhos chegaram a marejar e Demi sentiu as emoções tomarem conta do coração o fazendo bater mais rápido. Joe estava tão lindo dormindo e ela resolveu que não o chamaria até que o almoço estivesse pronto. Sorrindo, Demi arrumou mais a coberta nele e Joe ronronou a chamando. Se Demi já estava feliz, bem, agora ela estava radiante porque ele a chamava durante o sono e era a coisa mais fofa do mundo!

   - Dem? – Demi o observou procura-la na cama de cenho franzido e quem acordou foi Lucy que abriu os olhos e assim que a viu, a cadelinha ainda sonolenta abanou o rabinho. Tudo que Demi tinha feito foi levar o dedo indicador aos lábios como se Lucy fosse entender que ela pedia silêncio. E ela saiu facilmente do abraço do dono e se espreguiçou bocejando profundamente. – Lucy? – Não era para acordá-lo, mas lá estava a cena mais bonita que uma mulher poderia presenciar. Quando Joe estava dormindo e abria os olhos, era simplesmente fascinante olhar para a imensidão verde. – Dem. – Ele murmurou manhoso e Demi esboçou o seu melhor sorriso culpado.

   - Ei, desculpa. Eu não queria acordá-lo. – Disse envergonhada e Joe esboçou um sorriso um tanto sonolento sem deixar de olhar para os olhos da namorada. – Pode voltar a dormir. Te acordo mais tarde para o almoço. – Ela estava realmente sem graça por ter o acordado. Joe tinha passado toda a noite trabalhando e ela sabia que ele deveria estar cansado e com sono.

   - Não, vem cá. – Como viu que ela não faria nada, Joe se ergueu e a puxou pela mão com Lucy pulando em Demi. A cena foi engraçada, e só depois de tirar o sapato de salto, Demi estava aninhada nos braços de Joe debaixo da coberta com Lucy animada balançando o rabinho e olhando para as pessoas que ela mais amava. – Bom dia amor. – Ele disse todo apaixonado a olhando nos olhos e Demi sorriu envergonhada.

   - Bom dia amor. – Ela acariciou o rosto dele e Joe se curvou para dar um breve beijo nos lábios dela. Então eles riram quando Lucy latiu enciumada e se aproximou para se esfregar em Joe. – Ela está com ciúme. – Comentou Demi correndo os dedos no pelo cadelinha que se deitou se costas na cama para receber carinho.

   - Está. – Joe deitou a cabeça no peito da namorada e por minutos ele brincou com o pelo de Lucy como Demi brincava, até que a cadelinha ouviu um ruído que vinha do apartamento de cima e saiu correndo furiosamente em direção à sala para latir. – Oi. – Erguendo-se, Joe a olhou nos olhos e sorriu voltando a deitar a cabeça dessa vez um pouco abaixo do peito dela.

   - Oi. – Demi sorriu quando ele a olhou. Ela adentrou o cabelo dele com os dedos para acaricia-lo e a outra mão levou para o rosto para que pudesse brincar com os pelinhos da barba. Joe chegou a suspirar e continuou a olhando apaixonado até que se ergueu para beijá-la na boca. – Dorme, eu vou cozinhar e daqui a pouco você levanta para comer. – Disse quando ele se deitou ao lado dela e puxou a coberta para cobri-los. – Você está com frio? – Perguntou e ele assentiu a abraçando de lado todo exagerado.

   - Eu só vou dormir se for com você. – Joe roçou os lábios aos dela e aos pouquinhos conseguiu colocar uma das pernas entre as de Demi assim, praticamente cobriu a metade do corpo dela com o dele.

   - E se eu ficar aqui fazendo carinho até você dormir? – Ela sorriu quando ele fez careta enlaçando os dedos aos dela.

   - Não. – O olhar que eles trocaram foi longo e aproveitaram também para trocar carinhos. Joe no rosto de Demi tocando com cuidado a bochecha dela, e ela moldando o músculo do braço dele na mão. – Eu senti tanta a sua falta. – Disse quebrando o silêncio conforme estudava o rosto da amada. – Por isso quero dormir com você. – Completou e Demi umedeceu os lábios olhando para os olhos dele.

   - Eu também senti a sua falta. – Ela o beijou na boca e descansou os dedos na barba dele. – Só que eu não posso deixar você sem comer, meu horário de almoço não é muito longo. – Disse e Joe desviou o olhar do dela. Era complicado.

   - Eu odeio isso. – Deixou escapar e Demi não disse nada porque ela queria falar tantas coisas que era certeza que deixaria Joe chateado.

   - Como foi no trabalho? – Perguntou gostando de sentir os pelinhos em contato com os dedos.

   - Entediante. – Ele disse fechando os olhos quando ela o acariciou atrás da orelha. – Confesso que fiquei com medo quando ouvi alguns barulhos, mas eram apenas gatos namorando. – Demi riu imaginando a cena. Ela não conseguia imaginar Joe com medo.

   - Choveu a noite toda. – Disse e ele assentiu se lembrando de como tinha sido estranho ficar num lugar enorme à noite, ainda por cima chovendo, apenas com uma lanterna, uma pistola e um walkie talkie que nem tinha como funcionar já que ele era realmente a única pessoa que estava na empresa. – Você tomou chuva? – Perguntou um pouco desconfiada porque Joe estava de blusa e calça de moletom e calçava meias. Fora a coberta pesada.

   - Um pouquinho. – Ele se sentiu intimidado quando ela o olhou daquele jeito semelhante ao olhar que Clara lançava a ele antes de dizer poucas e boas. – Tomei. – Confessou e Demi se segurou para não brigar com ele.

   - Joseph. – Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar do namorado. – Você está sentindo que ficará resfriado? – Perguntou o tocando abaixo do maxilar e na testa para medir a temperatura como ela tinha aprendido quando morava com Selena.

   - Eu espirrei algumas vezes antes de dormir. – Disse encolhido com o olhar dela. – Mas me sinto melhor.

   - Joseph, como diabos você veio embora? – Perguntou quando se lembrou de que ele trabalhava no Brooklyn, que não era exatamente tão longe da área que moravam, mas o porto ficava distante e que Joe não tinha dinheiro. E pelo olhar dele, Demi levou a mão à testa não acreditando que ele tinha caminhado do trabalho até o prédio em que morava. Era uma caminhada longa e estava chovendo! – Eu não acredito! – Disse incrédula e ele franziu a boca numa linha sem saber exatamente o que falar. – A sua última refeição foi ontem à noite e olha que você não comeu o suficiente! – Quando ela se sentou a cama preocupada e um pouco nervosa, Joe resolveu que continuaria da mesma forma que estava: passivo. Ele não era bom com aquele tipo de argumentação e nem queria. – Você está brincando com a sua saúde? Você não é mais criança para se comportar dessa forma. – Ela tinha perdido a paciência porque só de pensar que poderia ter o perdido, o coração parecia rasgar o peito de dor.

   - Eu preciso trabalhar. – Disse simplesmente um pouco irritado porque não tinha gostado de como ela tinha o chamado de criança. – É justamente por isso que estou me comportando assim. – Demi o olhou nos olhos e segundos depois assentiu, claro que de uma forma completamente irônica não aprovando o comportamento dele.

   - Você tem que se alimentar de três em três horas e descansar. – Lembrou-o e Joe revirou os olhos. – Esqueceu que você é diabético e hipertenso? – Disse o olhando chateada.

   - E só porque sou diabético e hipertenso eu tenho que deixar de trabalhar? – Respondeu também chateado e Demi engoliu em seco. – Eu já vivi limitado boa parte da minha vida e eu não vou continuar assim. E não poder trabalhar? Está fora de condições.

  - Não foge do assunto! – Mesmo chateado, Joe arregalou os olhos quando Demi cerrou os dentes o olhando. – Você veio a pé e de estomago vazio da droga do seu trabalho até aqui. Por que você não disse que não tinha o suficiente para pagar a passagem do metrô? Três dólares não afetariam na sua masculinidade. – Joe respirou fundo enquanto massageava o cenho.

   - Uma hora você quer que vá morar com você, outra você quer pagar o meu aluguel e as minhas contas. São as minhas responsabilidades, não as suas.

  - O seu orgulho não deixa você enxergar que eu não quero te diminuir. A única coisa que eu quero é te ajudar porque eu te amo e quero que você fique bem, que você viva bem. É apenas isso, não estou tentando me promover. E de certa forma você ficou desempregado por culpa minha. – Disse o olhando nos olhos mostrando como ela estava magoada. – Eu vou fazer o almoço e vou voltar para o trabalho. Eu não deveria ter te atrapalhado com as minhas paranoias. – Murmurou a última parte levantando para calçar o sapato.

   - Demi. – Ele a chamou, mas Demi não olhou para trás enquanto caminhava para fora do quarto encostando a porta para que Joe tivesse mais privacidade. O que estava acontecendo mesmo entre eles? Sentado a cama, o rapaz não sabia o que fazer porque por um lado ele se sentia mal e Demi, que procurava pelas panelas no armário, preferiu não pensar no que tinha acontecido, porém estava sendo complicado. Ela acabou apoiando os cotovelos no balcão da cozinha e levado as mãos ao rosto respirando fundo.

Ela estava exagerando? Estava sendo invasiva? Não tinha muito tempo que eles estavam juntos e mal tinham completado um mês de namoro. Demi não soube muito bem o que fazer porque estava com medo e receio de estar levando muito a sério a situação. Ela só não conseguia pensar numa forma diferente de processar as atitudes de Joe. Voltar do trabalho a pé e na chuva? E ainda por cima com fome? Incomodada e sentindo o cérebro começar trabalhar em várias situações a deixando confusa e irritada, ela resolveu que era melhor preparar o almoço o mais rápido possível porque, por mais que não entendesse Joe e estava com medo de estar exagerando, ela se importava muito com ela e não queria vê-lo numa cama de hospital.

Lucy com todas as fofura de filhote não conseguiu distrai-la, e nem mesmo o celular. A cabeça estava doendo e Demi sentada à mesa fitando o nada esperando que o fogão trabalhasse em cozinhar o que faltava para o almoço. E ela estava tão distraída envolvida no próprio tédio e dor de cabeça que não percebeu quando Joe adentrou cautelosamente a cozinha.

   - Demi. – Ele caminhou até que estava em frente a ela, e quando Demi o olhou aparentemente cansada, ele ofereceu a mão para que ela pudesse abraça-la com a dela. – Eu.. – Joe tinha a puxado para um abraço gentil e quando a olhou nos olhos, franziu o cenho. – Desculpa. Por favor, me desculpa. Eu sei que você quer cuidar de mim, é só que. – Ele umedeceu os lábios e respirou fundo sem saber por onde poderia começar. – Uma parte de mim sabe que você quer cuidar de mim porque me ama. E eu admiro bastante isso. Só que tem outra parte que não quer mais viver como um menino dependente. Não me entenda mal, eu vivi a minha vida toda sobre o olhar de pena das pessoas por ser um garoto órfão. Ninguém nunca acreditou que eu poderia crescer e ser um homem longe da vida rotineira da fazenda. Eu sempre fui o menino inocente e que precisa de cuidados. O que eu quero dizer é que ter um emprego, ser independente é importante pra mim. Mais importante do que é para um cara comum. Desculpa por não ser gentil com você e te fazer se sentir mal. Você pode me ajudar, eu pensei sobre isso nos minutos que fiquei no quarto e eu não quero ser um cara orgulhoso na mesma medida que não quero te prejudicar.

   - Eu entendo. – Ela disse fitando os olhos dele se sentindo aliviada e emocionada por fazê-lo pensar e refletir sobre a forma que estava agindo. Era tão bom saber que Joe era um homem capaz de se auto avaliar e reconsiderar. – Posso ajudar. – Demi sorriu quando ele também sorriu mais acomodado com a ideia. – Nós somos um casal, e nós não funcionamos apenas na cama ou assistindo a desenhos. Eu sei que as coisas podem ficar confusas para você porque de certa forma é tudo muito novo e eu não quero te sufocar com muitas informações, o correto é acontecer naturalmente. – Disse o olhando nos olhos e Joe assentiu quando ela fez uma breve pausa. – Ser um casal vai muito além da forma que trocamos carinho e namoramos. Nós precisamos ser companheiros. Um deve conhecer a alma do outro. Não quero dizer que devemos ser espelhos, eu só tenho que te conhecer e ter a liberdade de falar quando estou triste, chateada, precisando de ajuda, ou qualquer outra coisa. O diálogo é fundamental numa relação. Como vou te conhecer se nós não conversamos e compartilhamos as coisas que nos agradam e as que não nos agradam? Não precisamos da vergonha ou da timidez no meio da nossa relação, são coisas que só funcionam a favor da nossa separação. E eu te amo Joseph, não quero ficar longe de você seja da forma que for. Nós só precisamos ser nós mesmos, sem vergonhas, ciúmes e segredos.

   - Posso ser um pouco lento e inocente, mas prometo que vou fazer o meu melhor para ser um namorado melhor. – A frase dele e a forma que os olhos verdes estavam vivos e atentos fitando os marrons dela, foi o motivo para Demi sorrir apaixonada e abraça-lo.

   - Você é um ótimo namorado. – Ela disse ainda sorrindo porque ele era fofo. – O melhor que eu poderia ter, só não seja teimoso. – Joe assentiu e sem pensar duas vezes selou os lábios dela com os dela num beijo simples que trocaram envoltos pelo abraço e a paixão. – Meninos teimosos ficam de castigo. – Brincou beijando a ponta do nariz dele e quando Joe se preparou para beijá-la de novo, o barulho de estalo assustou Demi. Diabos! O arroz começava a queimar.


   - Eu já disse que você cozinha muito bem? – A tempestade tinha passado e o sol brilhava lindamente. Demi estava sentada no colo de Joe e para mimá-lo, ela levava a colher carregada de comida para a boca do namorado como se ele fosse um bebê.

  - Não, você não disse príncipe. – Ela largou a colher para mordê-lo na bochecha e em troca Joe a apertou nos braços com força fazendo Demi murmurar manhosa. – Joseph, não. – Resmungou e ele fez biquinho pedindo por um beijo e foi o que ela fez. Deu uma série de selinhos nos lábios dele o fazendo sorrir.

   - Você cozinha muito bem, só que a vovó não pode saber que eu gosto mais da sua comida que a dela. – Ele disse e Demi negou balançando a cabeça. – Você não está me alimentando. – Resmungou manhoso e Demi arqueou uma sobrancelha, mas riu quando percebeu que ele estava apenas brincando.

  - Abre a boca amor. – Ela riu quando colocou a colher cheia de arroz e um pedaço de carne na boca dele, e Joe também riu. Estava divertida aquela brincadeira e eles aproveitavam para namorar na pouco tempo que tinham. – Você está muito mal acostumado. – Disse quando ele a apertou na cintura e aproveitou para adentrar a camisa e o suéter que ela vestia.

   - Não posso fazer carinho na minha namorada? – Perguntou subindo mais a mão e Demi estreitou os olhos, mas não impediu que ele deslizasse a ponta dos dedos na silhueta e depois a segurasse na curva da cintura.

   - Eu sempre soube que por trás desse nerd exista um homem muito safado. – Joe fez careta, e Demi riu porque as bochechas dele estavam coradas. – Estou brincando. Eu gosto quando você faz carinho. – Ela sorriu guiando a mão dele por baixo da blusa para o seio coberto pelo sutiã.

  - Será que dá para a gente namorar um pouquinho? – O que era aquele olhar de cachorrinho carente? Demi sorriu quando ele repousou a cabeça sobre os seios dela para olhá-la daquela forma apaixonante. – Eu não estou mais com fome amor. Só quero você.

   - Você comeu o suficiente. – Ela disse levando os dedos aos fios de cabelo dele da nuca para massageá-los. – Vamos organizar a Lucy e podemos conversar um pouquinho. – Demi sabia que ele faria aquela careta quando ouvisse a parte do conversar. – Não quer conversar comigo? – Perguntou sorrindo e Joe murmurou um não se curvando para beijar os seios dela mesmo sobre o suéter.

   - A gente não faz amor tem quase duas semanas. – Disse completamente manhoso e Demi revirou os olhos se levantando do colo dele porque Lucy começava chorar pedindo por comida.

   - Joseph! Não seja absurdamente exagerado. Tem no máximo uma semana. – Disse organizando a comida para misturá-la com a ração. – E eu voltei a tomar o anticoncepcional tem dois dias. – Ela fez careta assim que colocou comida para Lucy e trocou a água por uma nova. Joe tinha a abraçado por trás e escondido o rosto na curva do pescoço dela para beijá-la como queria.

   - Vamos, deixa isso aí. – Ele pegou a panela da mão dela a colocando de qualquer jeito sobre a pia e Demi sorriu entre o beijo que ela percebia que Joe se esforçava para ser gentil tentando controlar o lado selvagem, certamente porque ele estava com vergonha de ser um pouco mais ousado. – O que foi? – Perguntou quando a flagrou sorrindo ainda nos braços dele, e como ela era linda, Joe levou uma mecha do cabelo longo para trás da orelha e sorriu contagiado quando Demi umedeceu os lábios tendo que olhar para cima para fitar os olhos dele.

   - Nós já fizemos tantas coisas juntos e você ainda fica tímido. – Disse não para julgá-lo, era porque de certa forma ela gostava do jeito tímido dele. – Me ajuda? – Ela tinha tirado o sapato de salto ali mesmo na cozinha e Joe só foi entender o que ela queria dizer quando o pescoço foi enlaçado e Demi tentou fazer o mesmo com a cintura dele com as pernas.

   - A gente podia fazer amor aqui. – Os dois riram quando Lucy os olhou com certa dúvida, e então correu para a área de serviço. – Quarto ou sofá? – Perguntou entre o beijo e Demi puxou o cabelo da nuca dele pensando onde eles poderiam namorar.

   - Que tal inaugurar o seu sofá? – O sorriso que ela tinha esboçado era carregado de segundas intenções, já o de Joe era um sorriso tímido. – Coisa gostosa, eu te amo. – Ronronou quando ele a deitou no sofá cheio de cuidados e se ajeitou para se deitar sobre ela.

   - Eu também te amo princesa. – Foi simplesmente magnifico ouvir aquela frase com Joe entre as pernas dela tirando a blusa de moletom exibindo todos aqueles músculos perfeitos. – Eu queria ficar a tarde toda aqui com você. – Disse no ouvido dela e Demi o abraçou pela cintura sentindo o corpo quente envolve-la. O calor dele era tão gostoso e confortante. Ela o beijou na curva do pescoço quando ele tocou nas coxas nuas levando a mão para debaixo da saia.

   - Eu odeio ter que ser chata, mas nós temos que fazer isso mais rápido. – Disse Demi concentradíssima para não gemer alto porque os dedos dele sondavam a entrada do íntimo e os lábios estavam beijando o queixo dela e logo a garganta. – Vamos Joseph, tira essa calça. – Se ela não o empurrasse, Joe continuaria a devorando daquele jeito apaixonado dele por minutos e minutos, e eles não tinham todo o tempo do mundo.

   - Gostei do sutiã. – A pressa era tanta que Demi tinha tirado o suéter e a camisa de botões ao mesmo tempo, e bem, o sutiã era preto e o símbolo do Batman em amarelo estampava a peça em miniaturas. – A sua calcinha também é assim? – Perguntou quando ela se levantou junto com ele para se livrar da saia e Demi arqueou uma sobrancelha fitando o volume exagerado na cueca.

   - Bem.. – Ela sorriu quando a saia já estava nos pés revelando a calcinha com a mesma estampa do sutiã. E o sorriso de Joe foi de orelha a orelha. – O que você está esperando para ficar nu? – Perguntou se livrando da calcinha e depois do sutiã.

   - Eu só queria dizer que.. – Ele umedeceu os lábios e Demi riu porque ele não a olhava nos olhos. Olhava para os seios atentamente. – Que eu amo os seus seios. – Murmurou finalmente a olhando e Demi riu levando as mãos para o cós da cueca para ajuda-lo.

   - E eu amo você. – Sorrindo verdadeiramente, Demi o ajudou a ficar nu. Eles se olharam e sorriram sem vergonha. Aproximaram-se até que Joe envolveu a cintura de Demi com os braços a trazendo para o peito. Sorriram se olhando e trocaram um beijo lento e apaixonado, o que resultou em arrepios e gemidos baixos entre o roçar de lábios.

   - Ei. – Ele a chamou colocando uma mecha do cabelo castanho de Demi atrás da orelha. – Por mais que eu ame a ideia de inaugurar o sofá, quero você na cama debaixo da minha coberta quentinha. O que você acha? – Por que tão fofo? Demi assentiu prontamente o puxando para beijá-la, e foi tão bom ser conduzida para o quarto sentindo o toque suave e firme das mãos de Joe explorando as costas, apertando gentilmente o bumbum e embrenhando as mechas do cabelo da nuca com os dedos. Detalhe. O beijo ainda acontecia intenso e delicioso a cada roçar de língua. – Eu poderia passar a minha vida toda nessa cama debaixo da coberta com você. – Disse assim que a deitou na cama cheio de cuidados. E Demi sorriu para ele se abrindo enquanto Joe os cobria.

   - Isso é realmente muito bom. – A coberta era quente, e Joe também. O corpo dele estava sobre o dela pesado e acolhido entre as pernas. Foi tão bom abraça-lo e sentir pele na pele. As bochechas de Demi chegaram a esquentar, o arrepio a tomou e o coração bateu mais rápido quando Joe num movimento a penetrou a olhando nos olhos. – Muito bom, amor. – Ronronou tombando a cabeça para trás porque as mãos dele apertaram-na no bumbum e Joe continuava a olhando enquanto a penetrava sondando a reação dela.

   - Demi. – Chamou e só deslizou as mãos para apertá-la no seio quando Demi envolveu as pernas aos arredores dele garantindo que continuaria daquela forma. – Eu amo como você é quentinha. – Disse de cenho franzido investindo mais nos movimentos de olhos fechados para apreciar a sensação de estar nos braços da amada. – Princesa, Dem.. Me abraça amor. – Pediu todo manhoso e se controlando para não desabar sobre ela. E Demi o abraçou ainda colando mais os corpos. Ela o beijou na face e na boca vez ou outra interrompendo o beijo para gemer ali mesmo na boca do namorado que não parava por um segundo de dar prazer a ela com aquele ritmo lento e intenso.

O ponto mais alto daquele final de manhã foi quando Demi quase teve um surto quando Joe saiu do interior dela para se deitar a cama. E bem, ela reclamou tanto com grunhidos e múrmuros, até mesmo lançou um olhar feio a ele e tudo que Joe fez foi sorrir apaixonado a puxando para cima dele. E foi intenso e eles não conseguiram ficar calados. Toda vez que Demi o levava para dentro e o expulsava, ela sentia que estava no paraíso. O prazer estava instalado na ponta das mamas, corria em leves ondas pelas coxas que eram apertadas pelas mãos grandes de Joe e se concentrava todo na conexão que eles tinham.

Já Joe estava indeciso. Ele arqueava o corpo contra o dela mesmo que vagarosamente. Mas as mãos ele não sabia onde deixa-las. O bumbum era convidativo, e Joe o apertou se sentindo feliz como um rei só por poder tocá-lo. As coxas eram fantásticas! E só o fato de estar entre elas enterrado naquele lugar quente, apertado e escorregadio o deixava louco! Mas ainda sim, o rapaz queria tocar naquelas maravilhas e apertá-las. E bem, lá estavam os seios. Joe os fitavam com prazer. Os olhos brilhavam e quando ele teve a oportunidade, envolveu um mamilo nos lábios e o chupou arrancando um gemido alto de Demi. Era complicado saber onde ele poderia tocá-la, então aos pouquinhos ele revessou e sorriu apaixonado quando Demi se curvou encostando a testa a dele. Os olhos dela eram tão lindos! Fitavam os dele carregados de amor e paixão. Joe não conseguiu parar de sorrir, abraçou o corpo da namorada para que ela se deitasse sobre ele continuando com as investidas.

Os próximos minutos foram cheios de arrepios, gemidos e sorrisos anestesiados pelo prazer. Movimentaram-se vagarosamente daquele mesmo jeito, e quando chegaram ao ápice, Demi com os lábios entreabertos no peito de Joe e ele a abraçando com força, fecharam os olhos e continuaram abraçados sentindo a melhor sensação que um homem e uma mulher poderiam sentir um nos braços do outro.

   - Dem? – Joe acariciou o cabelo dela e Demi não respondeu, ronronou e suspirou se aninhando ao corpo dele. Como também estava zonzo e anestesiado pelo prazer, Joe fechou os olhos sem deixar de fazer carinho no cabelo de Demi. Ele acabaria dormindo, e como não poderia, Joe preferiu focar em fazer carinho na namorada. Ele deslizou a ponta dos dedos na linha da coluna e excitou as costas com a palma das mãos.

Por que Demi não o olhava? Joe franziu o cenho e quando a chamou, ela suspirou pesado porque estava cochilando. A indecisão era tão grande entre acordá-la e deixa-la dormir. Ele fez um pequeno esforço para alcançar o criado-mudo para verificar a hora no celular. Faltavam trinta minutos para o horário de almoço de Demi chegar ao fim. Deixaria que ela descansasse por pelo menos quinze minutos. O ruim era que o tempo passava num piscar de olhos, e não foi diferente.

  - Acorda princesa. – Cantarolou deslizando as mechas de cabelo por entre os dedos e então ele acariciou o couro cabeludo dela. – Ei, acorda anjo. – Ele sorriu quando ela se ergueu o suficiente apenas para olhá-lo. E Demi sorriu sonolenta tornando a abraça-lo.

   - Eu não quero ir trabalhar. – Ronronou contra o peito dele. Foi difícil para entender o que ela tinha dito, na verdade Joe não entendeu e riu um pouco sem jeito. – Queria ficar aqui com você. – Disse o beijando no queixo para depois se erguer apoiando os cotovelos no peito dele. – Você.. Hum.. – Ela tinha o beijado a cada palavra que tinha dito, e sorriu quando Joe sorriu deslizando as mãos pelo bumbum dela. – Você é incrível e eu amo fazer amor com você. – Disse o fazendo sorrir. – Querido, você entendeu o que eu quis dizer mais cedo, certo? – Perguntou gostando de sentir os dedos dele arrumando o cabelo dela que Demi tinha certeza que estava uma verdadeira bagunça. Mal ela sabia que estava tão linda. O cabelo estava jogado de lado e caía em mechas pesadas e marrons, os lábios estavam levemente inchados naquele tom de vermelho por conta dos beijos que eles tinham trocado. Joe gostava muito de como o rosto de Demi estava livre de maquiagem, então as sardas estavam à mostra e ele podia apreciá-las de pertinho. O fato da namorada estar completamente nua também o agradava bastante, principalmente porque o corpo dela estava em contato com o dele.

   - Entendi. – Era bom sentir que ele não mostrava o mesmo receio de antes. Demi sustentou o olhar dele e acabou sorrindo.

   - Nós devemos ser companheiros.. – Começou a dizer brincando com os dedos nos pelinhos da barba no queixo dele. – Amigos, amantes, confidentes e sempre devemos confiar um no outro sem segredos ou mentiras. – Sustentar o olhar dela doeu porque automaticamente Joe se lembrou da verdade sobre o pai daquela mulher. O que ele faria? Assentindo, o rapaz sentiu o coração pesar quando Demi se curvou para beijá-lo na boca e sussurrar um “eu te amo” nos lábios dele.

***

As portas de abrir eram de cor branca, madeira pesada e mais altas que as portas convencionais.  Elas guardavam o quarto do anfitrião da chácara, e no corredor, o clima estava insuportável e pesado a ponto de o tempo demorar a passar e a sensação de impotência dominar a todos. Parecia cena de filme. O silêncio foi preenchido por segundos pelo abrir das portas e então a médica, uma mulher morena e baixa vestida de branco, saiu do quarto impassível.

   - O meu pai vai ficar bem? – Apressou-se David a abordar a médica de forma desesperada. O homem era muito parecido com Inácio, o que os diferenciavam era os três anos mais de diferença e que David era cinco centímetros mais baixo que o irmão.

   - As sessões de quimioterapia foram intensas e agressivas para um homem da idade do seu pai. – Disse a médica fitando os olhos de David. – E ele sofreu dois infartos seguidos de ontem para hoje. – Não foi preciso dizer mais nada. David engoliu em seco tentando conter as lágrimas e então ele olhou para o irmão sentado a poltrona. Inácio estava sentado de pernas cruzadas. Ele vestia roupas sociais porque tinha saído do trabalho para ir à chácara onde o pai passava os últimos dias de vida. – Ele está fraco, mas está consciente. Vocês podem se despedir. – A voz suave da médica interrompeu os pensamentos de David que assentiu.

   - O papai está morrendo e você não diz uma palavra. – David abordou o irmão e Inácio continuou da mesma forma que estava: calado. Ele podia se lembrar de anos atrás quando esteve naquela mesma poltrona sentado com Megan neném no colo. A morte da mãe tinha o devastado, a morte da mãe das filhas levou um pedaço da alma e do coração daquele homem. Mas com o estado do pai, Inácio não conseguia sentir nada. Absolutamente nada. Ele não estava em choque e não sabia como agir. – O que está acontecendo com você? – Disse David bruscamente e Inácio franziu o cenho.

   - Ei, olha só quem veio ver o papai. – O clima tenso entre os irmãos foi quebrado pelo sorriso de Alicia nos braços de Anna. A pequenina era literalmente uma fofura! As bochechas eram cheinhas, os olhos marrons sempre estavam com o olhar fixo no que a pequena mais gostava. Alicia não era diferente das irmãs, tinha a pele clara que chegava a ser rosada e o cabelo liso castanho claro. E aquele sorrisinho de bebê era a coisa mais fofa que existia! – Ela estava te chamando, e para não vermos uma Alicia tomatinho, resolvi trazê-la. – Disse Anna ao pai assim que ele pegou a pequenina e sorriu feliz.

   - Você a alimentou? – Quando Inácio se dirigia as garotas, o tom era completamente diferente e aquele brilho especial estava estampado nos olhos. Ele amava cada uma de suas garotas, incluindo Demi, e sempre cuidaria delas. – Ei meu amor, o papai está aqui. – Mimou Alicia quando ela o chamou e se mexeu inquieta no colo do pai ansiosa para poder caminhar sozinha.

   - Alimentei. A Sandra já serviu o almoço para as meninas. – Disse se referindo as irmãs e as primas. – Está tudo bem com o vovô? – Anna perguntou ao pai que desmanchou o sorriso, mas não deixou de continuar brincando com Alicia. Então só restou olhar para David.

   - O seu avô.. O seu avô não tem muito tempo de vida. – Disse David inconsolável e Anna deixou que as lágrimas rolassem enquanto ela abraçava o tio com todas as suas forças. A menina cursava medicina e estava quase no final do curso. Era ela e Isabella, a irmã gêmea, quem ajudava o pai a cuidar das outras meninas. – Eu vou ligar para os seus tios, nós não temos muito tempo. – David beijou a testa da sobrinha e saiu um tanto impaciente.

   - Pai, você está bem? – Perguntou quando se sentou ao braço da poltrona e Inácio não fez nada de diferente.

   - Chame as suas irmãs, nós vamos para casa. – Anna arregalou os olhos e depois franziu o cenho sem entender o que estava acontecendo com o pai.

   - O vovô está morrendo e você quer ir embora como se nada estivesse acontecendo? – Questionou um tanto alto demais e quando Isabella adentrou o corredor acompanhada por Megan e Amber, as meninas tomaram um choque.

Inácio não as consolou. Foi papel das gêmeas consolar as duas irmãs mais novas em abraços reconfortantes. As meninas choravam que chegavam a soluçar e quando David adentrou a sala acompanhado pelo irmão mais velho, Thiago, os dois franziram o cenho porque Inácio não demonstrava nenhum tipo de emoção.

   - Onde está a Hannah? – Isabella perguntou a Anna que deu de ombros. Ela consolava Amber, a irmã mais nova e foi complicado quando Megan se juntou ao abraço.

   - Eu a vi perto da piscina. – Disse Amber chorosa que a ponta do nariz chegava estar rosada.

   - Eu vou atrás dela. – Disse Isabella a Anna, e o olhar que elas trocaram dizia tudo. Hannah sempre tinha sido uma boa garota, mas depois da morte da mãe e do namoro proibido, a menina estava diferente.

A chácara da família Lovato era grande, bem estruturada e luxuosa. Sendo assim, nos corredores havia inúmeras portas que davam acesso a quartos, salas e um salão de festas. Passando pela sala, Isabella cumprimentou as duas tias e o outro tio que adentravam, claramente abalados, a casa e então vinham os primos logo atrás. A casa ficou cheia em questão de segundos. Os carros tomaram conta da frente e dos arredores. Lá fora, diferente do tempo em Nova York chuvoso naqueles últimos dias, o sol castigada! E como castigava, chegava a arder na pele.

Para encontrar Hannah, a Isabella seguiu os instintos e como tinha pensado, a irmã estaria sentada a beirada da piscina com os pés na água concentrada no que fazia no celular.

   - Hannah. – Chamou pela irmã e Hannah se assustou quase deixando o aparelho cair dentro da piscina.

   - Quando nós vamos embora? – Perguntou Hannah voltando a atenção para o celular. Ela não tinha fitado o rosto da irmã que mostrava que as coisas não estavam boas. – Eu preciso ir para casa. – Disse mal humorada e Isabella se sentou ao lado dela.

   - Olha pra mim. – Pediu pacientemente até porque ela era conhecida como a irmã de temperamento mais passivo, diferente da irmã gêmea que não tinha muita paciência com as travessuras de Hannah. – O papai não está bem. – Disse e finalmente teve a atenção da irmã. – Você vai ficar longe do Augusto, Hannah. Eu e a Anna encontramos os testes de gravidez no lixo do seu quarto. Nós não queremos e nem devemos trazer problemas para a nossa família. As coisas já são complicadas demais e complica-las mais não é inteligente. Você só tem dezessete anos e sabe que, caso estivesse grávida, o papai teria muitos problemas na justiça assim como o Augusto, que já é maior de idade.

   - Eu o amo e não deixa-lo só porque o papai quer. E você deveria fazer o mesmo. Abrir mão do Matthew? É sério, Bella? Você sabe que o papai só está fazendo drama, e se depender dele, nós morremos virgens. – O assunto era delicado e Isabella franziu o cenho não gostando de como a conversa estava seguindo.

   - Você não vai arrumar problema. O vovô está morrendo, Hannah. – Agora sim Isabella tinha conseguido toda a atenção da irmã. E como sempre acontecia, Hannah a consolou quando as lágrimas rolaram furiosamente.


Se era um absurdo, Inácio não sabia. Só era complicado. Desde que Dianna voltou e contou o que tinha sofrido, o pai tinha virado um monstro e nem mesmo o fato dele estar morrendo anemizava a raiva. Anos atrás, quando ele engravidou a mãe das seis filhas, o casamento não aconteceu por amor. Não, Inácio amava Dianna e do nada ela tinha sumido enquanto ele era obrigado a casar com Caroline só porque seria pai. Não era errado e muito menos injusto, não uma vez que ele tinha mudado a vida de uma mulher e colocado duas crianças no mundo. Não foi ruim, bem pelo contrário, conforme o passar dos anos Inácio se apaixonou por Caroline e a amou até o último suspiro. Mas o amor da vida daquele homem sempre foi Dianna e o fato dela também ter engravidado de uma menina linda e sido violentada sexualmente pelo pai dele, era o suficiente para acabar com Inácio. Ele não queria Peter perto das filhas e não queria olhar para cara dele. Foram anos e anos de mentiras! O pai que Peter tinha sido não passava de uma farsa porque um homem que era capaz de violentar uma mulher, aliás, uma menina grávida de um bebê do filho, não merecia perdão e nem compaixão. Só era complicado explicar para os irmãos e toda aquela gente que o julgava com um olhar em reprovação. Dentro do quarto Peter estava morrendo e Inácio com Alicia no colo a abraçando como se nada estivesse acontecendo.

   - Ele está te chamando. – As lágrimas da irmã mais nova rolavam furiosamente, o cenho estava levemente franzido e o rosto avermelhado assim como os olhos. Clarisse não era de chorar e geralmente a mais dura na queda. Inácio a olhou, então olhou para Letícia, a irmã do meio, e depois para David, Thiago e Gustavo. Eles sempre foram bons irmãos, mas será que era justo destruir a imagem que eles tinham do homem que amavam? Estupro. Uma menina grávida. Era demasiadamente repugnante.

   - Segure Alicia. – Soou grossa e impessoal. Inácio de repente estava sério, rígido e com o ódio estampado nos olhos. A bebê ficou tranquila nos braços do tio e aos pouquinhos Inácio abriu caminho entre os irmãos, sobrinhos e sobrinhas.

Fechar a porta do quarto foi a pior parte. Inácio se sentiu encurralado e ameaçado como se um monstro estivesse o esperando. Mas tudo que tinha no quarto era um senhor de pele frágil de uma cor pairando entre o amarelo e o cinza, as veias de Peter se estavam finas e nas dobras dos braços os hematomas eram visíveis e de cor roxa. O pai tinha sido um homem determinado quando mais novo, um exemplo a seguir de masculinidade e força. E lá estava ele nos seus últimos dias de vida tão frágil quanto um bebê recém-nascido.

   - Inácio.. – A voz soou tão fraca e baixa. O sorriso murcho de Peter foi de uma melancolia capaz de fazer com que as lágrimas rolassem pelo rosto de Inácio tão abruptamente. Ele se sentou a poltrona sentindo o coração aberto e vulnerável. Sentia-se confuso, furioso, impotente e tão culpado. – Filho... – Peter o chamou esforçando-se para levar as mãos as de Inácio. Os olhos marrons estavam frágeis e miúdos, as pálpebras enrugadas tinham os cílios curtos e em pouquíssimos fios. Inácio fitou o rosto do homem que sempre admirou e respirou fundo tentando conter as lágrimas e as emoções.

   - Você a tirou de mim. – Começou a dizer limpando bruscamente as lágrimas. Ele não tocou as mãos do pai e sabia que se sentiria profundamente culpado quando fosse tarde demais. – Você a estuprou dentro dessa maldita casa, e a minha filha estava no ventre dela. Você não merece as palavras dos meus irmãos, você não merece as lágrimas das minhas filhas, você não mereceu a mamãe e nenhum dos nossos sorrisos. Demetria cresceu sem pai, Dianna se fechou para o mundo porque você a violentou! Você a violentou porque você é um monstro doente! – Ele deitou a cabeça na beirada da cama e chorou tanto, chorou colocando toda a raiva, ódio e porque estava decepcionado com quem o pai realmente era. – Você é um covarde. – Os olhos do pai estavam com o olhar fixo aos dele, Peter tentou falar, mas não teve muito sucesso, e Inácio se sentiu como um menino desprotegido e com medo. Só não foi o momento exato para dizer aquelas palavras. O aparelho que media a atividade cardíaca em ondas serrilhadas emitiu o famoso som e a onda parou de oscilar ficando constante. Peter tinha partido.

As lágrimas rolaram impiedosas. Inácio chorou alto soluçando e fechou os olhos do pai sem saber ao certo o que estava acontecendo. Ele estava funcionando no automático e agora sim estava em estado de choque. O desespero aos pouquinhos foi se instalando assim como o pânico. Assustado, Inácio abriu a porta do quarto, encarou a face chorosa da família e apressou o passo para longe daquelas pessoas. Nem mesmo com o protesto do irmão e das filhas ele parou. Adentrou a caminhonete e a ligou dando partida sem nem mesmo saber para onde estava indo.


***

   - Você tem certeza que não tem problema? – Ed e Selena estavam logo a frente caminhando de mãos dadas em direção ao prédio da Gyllenhaal, Joe e Demi vinham logo atrás a passos mais lentos e aproveitando o momento que estavam juntos.

   - Ei, não tem. – Quando o olhou, Demi sorriu. Joe sempre ficava bem de verde, principalmente quando ele vestia aquela camisa xadrez de mangas longas, vestia jeans e calçava all star. E claro que o cabelo dele estava arrepiado e quem usava os óculos de grau era Demi. – Ninguém tem nada a ver com a nossa vida, eles vão falar, mas você ficar comigo uma vez ou outra não tem problema. – De tão apaixonados que estavam, a ideia de um ficar longe do outro era desagradável, principalmente depois do novo trabalho de Joe. Demi tinha sugerido que Joe passasse aquela tarde com ela no escritório e ele gostou da ideia porque queria ficar com a namorada.

   - Não quero arrumar problema para você, pequenina. – Ela sorriu com o apelido carinhoso abraçando o namorado de lado.

   - Você não vai arrumar, príncipe. – Era automático. Quando começavam a se olhar e sorrir, o resto do mundo deixava de existir. – Você está tão lindo. – Demi estava admirada. Ela arrumou a gola da camisa, subiu as mãos para o rosto dele acariciando a barba. Aquele era o detalhe que deixava Joe simplesmente charmoso, os pelinhos não cresciam falhados como as barbas de alguns homens, eles estavam todos certinhos para deixar aquele homem mais lindo do que ele já era.

   - Você também está linda. – A cintura de Demi era delicada, então tocá-la ali, assim como nos outros lugares, exigia uma série de cuidados já que enquanto Joe era grande e forte, Demi era pequena. As mãos dele estavam descansando a cada lado da cintura num aperto gentil ao mesmo tempo em que era firme. – Aliás, você sempre está linda. – Disse agora envolvendo o corpo dela com os braços para sentir a forma dela contra o peito dele. O calor que compartilhavam era envolvente e delicioso de sentir, Joe umedeceu os lábios e antes de selar os lábios nos de Demi como desejava, ele enrolou uma mecha do cabelo dela por entre os dedos se preparando para beijar os lábios da amada como ele queria.

   - Tudo vai dar certo, ok? – Os olhos dela fitaram os dele e os lábios roçaram os de Joe aproveitando também para puxar o inferior por entre os dentes. – Eu acho que é melhor a gente ir. – Selena e Ed estavam na porta do prédio da Gyllenhaal os esperando de mãos dadas. Eles preferiam não trocar todo o calor que Joe e Demi trocavam em público.  – A Sel não sabe disfarçar. – O sorriso de Demi era espontâneo e ela não conseguia escondê-lo porque Selena também sorria olhando.

   - Só faltou estar chovendo e tocando alguma das músicas da Céline Dion. – Comentou Ed e eles riram da careta do rapaz. – E aí? Como foi no trabalho? – Assim que adentraram ao prédio, Joe sentiu o olhar das pessoas sobre ele e Demi, mas mesmo assim ele continuou a abraçando de lado e contou a Ed como tinha sido trabalhar como vigilante. Não era o pior emprego do mundo, Joe destacou a demora para o tempo passar e a mesma história dos gatos para Demi. E claro que ele não deixou de incluir a melhor parte: ele tinha visto a noite perder lugar para o dia, a lua dar lugar ao sol no céu.

A conversa entre Joe e Ed era interessante a ponto de Demi e Selena apenas ouvi-los curiosas e envolvidas com o ponto de vista deles. Demi estava orgulhosa de Joe e ouvi-lo falar sobre como tinha sido o trabalho a ajudou a compreender melhor a necessidade de Joe estar trabalhando com algo completamente diferente do que ele tinha se preparado.

Quando chegaram ao departamento, as mulheres que trabalhavam ali estavam divididas entre as atividades e algumas olharam e comentaram sobre Joe e Demi. Até porque as que gostavam de cuidar da vida alheia sempre comentariam, principalmente porque todos sabiam como uma parte do relacionamento de Demi com Joe tinha se desenvolvido.

   - Fique a vontade. – Demi tinha acabado de fechar a porta do escritório que os isolavam dos demais. Ela olhou para Joe que observava como a sala dela era organizada e tinha cores interessantes. A vontade era de beijá-lo e continuar o que eles tinham começado no horário de almoço, mas o trabalho estava a esperando. – Se você estiver com fome nós podemos comprar alguma coisa ou ir ao refeitório. – Disse colocando a bolsa na prateleira e o celular sobre a mesa.

   - Você colocou maçãs dentro da sua bolsa. – Joe esboçou um pequeno sorriso se aproximando de Demi. – Prometo que vou ficar quietinho. – Ele esboçou um sorriso tímido, envolveu a cintura deliciada com os braços e fitou os olhos da namorada.

   - Não tenho dúvidas. Você é um bom menino. – Eles sorriram mais envolvidos no que aconteceria. Demi selou os lábios nos dele e roçou os narizes. – Tenho algumas revistinhas na prateleira. E o sofá é muito confortável. – Ela deu um selinho nos lábios dele de novo. Quem fez daquele roçar de lábios um beijo propriamente dito foi Joe. E como sempre acontecia, a sensação era sem igual!

   - Eu te amo. – Ele disse ainda no calor da boca dela, fitou os olhos marrons e abraçou Demi afirmando mais uma vez que ela era a melhor coisa que tinha acontecido na vida dele.

   - Eu também te amo. – Os lábios femininos estavam trabalhando em distribuir beijinhos molhados no maxilar de Joe.

O calor dos braços de Joe era o suficiente para leva-la para outra dimensão, sentir que tudo ficaria bem e que ela era amada. Abraçando os músculos dos braços dele, Demi o beijou novamente e então apresentou Joe a prateleira de revistas em quadrinhos e o caderno de desenhos que tinha ali porque sabia que ele não mexeria em nada mesmo com a permissão dele.

Seria egoísta pedir que Joe ficasse sempre perto dela? O que acontecia na tela do notebook era desinteressante, os documentos pareciam que nunca acabariam. Vez ou outra Demi olhava para Joe gostando de vê-lo entretido com as histórias em quadrinhos e até mesmo ele sorria certamente imaginando o que acontecia. Algumas vezes Joe se aproximou timidamente para beijá-la e quando mais tarde Demi se juntou ao namorado no sofá levando consigo o notebook. Ao menos ela podia deitar com a cabeça no colo de Joe ainda focada no trabalho e ele em ler a revistinha e acariciando o couro cabeludo dela. Quando estavam juntos, as coisas começavam a fluir e foi assim com o trabalho e com a leitura. Não hora do lanche comeram as maçãs no escritório mesmo e Demi tinha ido ao refeitório buscar um pouco mais de comida.

   - É tão bom ter você aqui. – Comentou baixinho porque a cabeça estava encostada no ombro dele e o carinho que recebia no rosto e no cabelo era delicioso. – Mas eu ainda preferia que você estivesse em casa dormindo. – Erguendo-se, Demi fitou os olhos de Joe e encostou a cabeça a almofada do sofá para poder continuar o olhando.

   - Está tudo bem. – Disse mais focado em fazer carinho no corpo dela porque gostava de como Demi estava deitada sobre ele fazendo com que os corpos se roçassem. – Quando nós chegarmos em casa, podemos dormir um pouquinho, claro, se você quiser.

   - Primeiro tenho que me certificar que você terá comida o suficiente no trabalho, que não vai passar frio e que ficará protegido. – Joe sorriu como um menino porque Demi brincava com os dedos no peito dele e ele gostava de receber aquele tipo de cuidado dela. – Você é meu bebê e ninguém machuca você. – Ronronou se curvando para beijá-lo na boca. Joe fez careta, mas a beijou na mesma intensidade a abraçando forte contra ele.

   - Acho que a gente não pode namorar aqui, Dem. – Para o clima esquentar entre eles era daqui pra ali. Prova disso era que a mão de Joe já procurava pelo seio por debaixo do suéter e a mão de Demi encaminhava pelo músculo grande do braço para o abdômen e logo na região abaixo. – Quando a gente estiver em casa, ok? Nós podemos fazer amor bem devagar e dormir até as oito, o que você acha? – A resposta dela foi um beijo molhado, as mãos apalparam os músculos dele e Joe os seios dela.

   - Daqui a pouco a gente vai embora. – A intenção não era excitá-lo, mas ela tinha o feito quando se sentou sobre a região esfregando num gesto natural o íntimo contra a dele. – Nós passamos no caixa eletrônico e vamos para casa. – Quando Joe gemeu assentindo, os dois acabaram em meio ao beijo que trocavam. Eles tinham combinado que quando estivessem voltando para casa, Demi sacaria o dinheiro para Joe pagar as contas atrasadas.


***

O som das batidas era intenso e assustador. Ninguém nunca tinha batido à porta como estavam batendo. A madeira chegava a vibrar e teve um momento que Dianna pensou que a fechadura não iria aguentar. Ela chamaria o pessoal da segurança, mas então o barulho das batidas cessou dando lugar ao som do choro abafado e dos soluços. A primeira pessoa que veio a mente foi Demi, então sem pensar duas vezes a porta foi destrancada e aberta. Num segundo o corpo de Inácio abraçava o dela. Ele era pesado e consideravelmente mais alto e forte. Porém Dianna não reclamou. É claro que ela estava assustada e sem saber o que fazer. Ter Inácio perto daquele jeito despertava sentimentos que ela não sabia que poderia sentir. O coração estava acelerado e de repente ela se sentia nervosa.

Por minutos ela não questionou o que tinha acontecido. Deu suporte para Inácio chorar com a cabeça descansando na curva do ombro direito, e se fosse alguns meses atrás, ela com certeza perguntaria na maior arrogância o que ele pensava que estava fazendo por molhá-la com lágrimas.

   - Inácio. – Chamou gentilmente adentrando o cabelo da nuca dele com os dedos, mas ele não a olhou. – Espere um pouco querido. – Aos poucos ela conseguiu desfazer do abraço. Fechou a porta que continuava aberta e guiou Inácio pela mão na direção do sofá onde ele sentou e fitou o teto completamente fora de si. O rosto estava avermelhado, os olhos inchados e às vezes a crise de choro começava novamente.

O que fazer? O que fazer? Dianna umedeceu os lábios enquanto colocava uma mecha do cabelo atrás da orelha. Ela teria que acalmá-lo para conseguir saber o que estava acontecendo, mas não sabia exatamente como conseguiria já que Inácio chorava inconsolavelmente. A lembrança do dia em que Amélia morreu a pegou de surpresa. O sentimento apertou o peito e Dianna se sentiu desconfortável. Ela não tinha deixado Demi se aproximar, preferiu sofrer sozinha. Mas não podia negar que em certo ponto do sofrimento que a filha tinha a ajudado quando levou um copo com água e apenas ficou ao lado dela sem dizer nada.

Então o copo com água pareceu ser a solução perfeita e o melhor foi que Inácio bebeu todo o líquido e respirou fundo aparentemente mais calmo. Será que era a hora de perguntar o que tinha acontecido? Ela também estava nervosa porque os sentimentos estavam a loucura no peito. Não tinha como negar que Inácio era especial, e vê-lo sofrer a machucava. Não foi estranho ficar em silêncio. Quando ela se acomodou ao lado dele no sofá, Inácio deitou a cabeça no ombro dela e chorou baixinho. Ele chorava porque tinha a perdido, chorava porque Demi tinha crescido sem pai, chorava porque a imagem do homem que ele amava tinha sido completamente falsa e chorava principalmente porque se sentia péssimo e confuso.

   - Inácio? – Dianna o chamou cerca de quase uma hora mais tarde. Tudo estava muito quieto e quando ele suspirou, ela soube que Inácio estava dormindo. Ajeitá-lo no sofá não foi uma tarefa fácil, os homens geralmente eram pesados e Inácio era grande e forte.

A cada meio segundo Dianna se perguntava o que ela faria com aquele homem no sofá da sala. Inácio estava dormindo que chegava a suspirar. A única alternativa era deixa-lo dormir, quando ele acordasse já era outra história. Observando-o do sofá, o coração acelerou porque ela tinha se lembrado exatamente do dia que o conheceu na chácara. Os olhos dele fitaram os dela tão intensamente naquela tarde, foi como paixão a primeira vista e a química nasceu tão naturalmente entre os dois. Olhá-lo não iria contribuir em nada. Suspirando, Dianna se levantou arrumando o cardigã ao corpo. A chuva tinha voltado a cair e estava um pouco frio no interior do apartamento, razão pela qual ela caminhou até o quarto de Demi para pegar a coberta da filha dobrada perfeitamente na prateleira do closet. A maioria das coisas que tinha naquele quarto era da época que Demi ainda era adolescente. E até mesmo o cheiro inconfundível da filha estava ali impregnado nas paredes e em cada objeto, por isso Dianna sorriu se sentindo estranhamente feliz.

Na volta para sala, o sorriso de Dianna se alargou. Demi era muito parecida com o pai, a forma como eles dormiam esparramados e intensamente era idêntica! Sem contar os olhos marrons. Aproximando-se de Inácio, ela tirou os sapatos dele e franziu o cenho porque ele não ficava muito bem no sofá, aquele espaço era pequeno e deveria ser desconfortável para um homem daquele tamanho.

O engraçado era que a coberta de Demi era cor de rosa com florezinhas amarelas. Anos atrás, tinha sido uma guerra para comprar aquela coberta! Demi insistia numa estampa masculina e Dianna e Amélia optaram por aquela e nem mesmo deram a oportunidade para a menina escolher o que queria. Por um pouco Inácio ficou descoberto, mas a coberta o acolheu bem. Agachando-se, Dianna estudou o rosto bonito e emocionada com as lembranças da adolescência, ela teve coragem de acariciar a barba por fazer. O passar dos anos não tinha feito nada mal a Inácio.

   - Dianna? – Ela não queria acordá-lo e só de ter os olhos dele fitando os dela, o coração quase saiu boca a fora. – Deita comigo. – Pediu e ela não conseguiu negar. Demi também tinha herdado o jeito carente do pai.

Durante toda a vida, Dianna não podia se lembrar de uma sensação melhor. Muitos homens estiveram na cama com ela. Alguns simplesmente por dinheiro, outros por desejo e dinheiro. O dinheiro sempre estava envolvido. Porém nada era melhor que estar nos braços de Inácio, o sentimento era único e ali, aninhado nos braços dele, nada poderia compra-la.


   - A nossa filha, Dianna. Por favor, deixe-me contar que sou o pai dela. – Pediu baixinho a olhando nos olhos. Inácio estava triste e parecia tão desesperado. Dianna retribuiu o olhar cheio de dor, mas não disse nada, abraçou-o e nos braços dele, no melhor lugar que ela já tinha estado, o medo a invadiu.


Continua... Oi! Tudo bem com vocês? Eu estou bem! Demorei né? Perdoem, eu estava sem saber o que fazer, e sinceramente, não sei se peguei pesado demais. Eu queria ter feito mais coisas nesse capítulo, mas os dias estavam/estão passando e achei melhor não deixa-las sem capítulo por muito tempo. Ainda há tanta coisa que eu quero fazer nessa fanfic, e nós já estamos no Capítulo 47. Enfim, espero que vocês tenham entendido o ponto de vista do Joe e a situação do Inácio. Obrigada pelos comentários. Um abraço e até o próximo capítulo. ps. não consegui revisar perfeitamente esse capítulo porque estou morrendo de sono